Manifestação marca 10 anos da desocupação do Pinheirinho

Cerca de 500 pessoas participaram do ato político de caráter nacional para marcar os 10 anos da desocupação do Pinheirinho, neste sábado (22), na zona sul de São José dos Campos. Representantes de entidades sindicais, partidos políticos, ocupações, movimentos sociais, artistas e ex-moradores estiveram entre os participantes.

A manifestação foi realizada em frente ao terreno da antiga ocupação, que está abandonado. Toninho Ferreira, advogado que acompanhou as famílias e presidente do PSTU em São José dos Campos, abriu o ato ressaltando um dos reais motivos por trás da desocupação.

“Aqui demonstramos que a população pobre sabe e pode fazer sua própria vida e ser dona de seu próprio futuro, e a elite brasileira não suporta isso. A gente fazia mobilizações pela luta geral do povo e pelas questões gerais do país. É isso que eles não podem suportar: a consciência da população civil”, disse Toninho. 

Nas falas dos representantes de partidos, movimentos e sindicatos, foi evidenciada a violência do Estado contra os mais pobres. Em um paralelo entre 2012 e 2022, teve destaque a destruição causada pela direita e extrema direita no país.

“Estamos diante de um governo de ultradireita, que ataca a classe trabalhadora e o povo pobre. Vivemos um cenário de pandemia, crise social e sanitária, enquanto aumenta o número de bilionários no mundo. Aqui no nosso país, vemos a precarização da nossa classe, a inflação ampla, o povo passando fome e o desemprego. A única alternativa para derrotar o governo Bolsonaro é a unidade operária e popular”, afirmou o presidente do Sindicato, Weller Gonçalves.

Foto:Rodolfo Moreira

10 anos da desocupação do Pinheirinho

Histórico de luta
O Sindicato dos Metalúrgicos, o PSTU e outras organizações sempre estiveram ao lado das famílias sem-teto que ocuparam o terreno da massa falida da empresa Selecta, uma área de mais de 1 milhão de metros quadrados abandonada a zona sul da cidade. Em 2004, ainda no início da ocupação, as famílias deram função social ao espaço, pertencente ao megaespeculador imobiliário Naji Nahas.

Com o passar dos anos, cerca de 1.800 famílias idealizaram e criaram um verdadeiro bairro no local. Havia pontos de comércio, igrejas, quadra de esportes e produções rurais, espaços que davam dignidade e esperança a quem vivia no Pinheirinho.

Mesmo devendo milhões de reais em impostos à Prefeitura de São José dos Campos e ao governo federal, Naji Nahas conseguiu apoio do então prefeito Eduardo Cury e do ex-governador Geraldo Alckmin (ambos do PSDB na época), que fizeram de tudo para expulsar as famílias da ocupação. Até hoje não há um destino certo para o terreno.

“A gente viu Lula dizendo que Geraldo Alckmin é o único tucano que gosta de pobre. Se gostar de pobre for isso, imagina quando ele ficar irritado com os pobres. Nós queremos que esse terreno volte pra mão do povo e que essas famílias tenham reparação por danos morais e pelas casas derrubadas”, complementou Toninho.

Violações e truculência


No dia 22 de janeiro de 2012, o terror assombrou quem dormia dentro de casa no Pinheirinho. A Tropa de Choque da Polícia Militar, com dois mil soldados, invadiu a ocupação. Na megaoperação, a PM, sob a ordem da juíza Márcia Loureiro, acordou os moradores ainda de madrugada com carros blindados, helicópteros, cães farejadores, balas de borracha, sprays de pimenta, bombas de gás lacrimogêneo e cavalaria. Duas pessoas foram mortas e nove mil ficaram desabrigadas, em um verdadeiro caos social para a cidade.

Ao lado dos policiais, estavam tratores da Prefeitura. À medida que os moradores eram expulsos, pertences, móveis, alimentos e brinquedos iam embora junto com o entulho das casas. As demolições foram imediatas, sem chance de defesa a quem vivia ali.

“Dez anos atrás, a polícia do governador Alckmin passou com trator por cima da casa das pessoas alegando que esse terreno teria uma destinação mais nobre. São dez anos desse terreno virando mato. É dessa forma que se acumulam as fortunas dessa sociedade. O Naji Nahas está muito mais rico hoje do que era naquele momento. Essa riqueza se constrói com a destruição de tudo aquilo que a classe trabalhadora tem”, destacou Zé Maria, presidente nacional do PSTU.

Foto:Rodolfo Moreira

Ataque à dignidade

Sem ter para onde ir, as famílias foram encaminhadas a abrigos improvisados, onde faltava privacidade e dignidade. Durante meses, pais, mães, crianças e idosos viveram nesses locais, até receberem um aluguel social – dinheiro que era insuficiente para alugar uma casa.

As moradias prometidas durante a desocupação violenta demoraram quase cinco anos para sair do papel. Batizado pelos moradores de Conjunto Habitacional Pinheirinho dos Palmares, o bairro foi construído na periferia, na região do Putim, a 15 quilômetros do centro de São José. 

“O gasto para desocupar e pagar o auxílio-aluguel e construir as residências foi muito superior ao valor que seria usado se tivessem regularizado a ocupação. Fizeram a desocupação ilegal e violenta para retirar das mãos do povo o controle da luta por moradia, mas não conseguiram. Isso gerou ainda mais resistência. A chama com certeza bate no coração de várias ocupações pelo Brasil”, explicou Luiz Carlos Prates, o Mancha, dirigente da Executiva Nacional da CSP-Conlutas.  

Foto:Rodolfo Moreira

Abandono continua

Hoje, o que se vê no terreno da antiga ocupação é um cenário de descaso, abandono e pouco caso com a moradia. As famílias nunca tiveram reparação pela injustiça e pelas violações aos direitos humanos ocorridas naquele 22 de janeiro.

“Se existe despejo, se existe desocupação violenta, é porque existe capitalismo. Se existe miséria e pobreza, é por conta desse sistema. A única forma de acabar com a pobreza, de garantir terra, reforma agrária e teto é construindo uma sociedade mais justa e igualitária, uma sociedade socialista, para libertar o povo pobre do sistema capitalista. O Sindicato dos Metalúrgicos sempre estará ao lado do povo nessa luta”, afirmou Weller Gonçalves, presidente do Sindicato.

Foto:Rodolfo Moreira
Foto:Rodolfo Moreira
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