Saúde

Incontinência urinária após a cirurgia de próstata: entenda a recuperação e como os exercícios ajudam

A jornada de recuperação após uma cirurgia de próstata pode trazer desafios inesperados, e a incontinência urinária pós prostatectomia é, sem dúvida, um dos mais comuns.

Embora seja uma preocupação para muitos homens, é importante saber que a perda urinária no pós-operatório é frequente, mas totalmente manejável. Milhões de homens em todo o mundo passam por essa fase, e a boa notícia é que a recuperação geralmente envolve exercícios do assoalho pélvico e um acompanhamento estruturado, que podem trazer resultados significativos.

Não se trata de um problema sem solução. Pelo contrário, com as informações corretas e as ferramentas adequadas, é possível retomar o controle e a qualidade de vida.

Compreendendo a incontinência após a cirurgia de próstata: causas e fatores

A incontinência pós prostatectomia está ligada principalmente à disfunção do esfíncter uretral, a “válvula” que controla o fluxo da urina, e a alterações anatômicas ou funcionais que podem ocorrer na região da bexiga e uretra após a remoção da próstata. Pode haver, também, contribuições de fatores individuais do paciente e da técnica cirúrgica empregada.

A incontinência predominante após a cirurgia é a de esforço, que ocorre quando há uma pressão sobre a bexiga, como ao tossir, rir ou levantar pesos. Isso se deve ao comprometimento do esfíncter que, mesmo que parcialmente preservado, pode não ter a força total de antes. Além disso, é possível que haja componentes vesicais, ou seja, alterações na forma como a bexiga armazena e expulsa a urina.

Alguns fatores de risco podem influenciar essa condição. Por exemplo, a idade do paciente, o IMC (índice de massa corporal — uma medida que usa a altura e o peso para verificar se uma pessoa está em um peso saudável) e a técnica de preservação de nervos durante a cirurgia podem desempenhar um papel.

O comprimento uretral membranoso (MUL – um marcador anatômico relevante para a recuperação da continência) também é um indicador importante, conforme destacado em estudos publicados no MDPI.

O caminho da recuperação: quando a continência retorna após a prostatectomia?

É natural querer saber o tempo de recuperação da continência pós prostatectomia. É importante, todavia, ter expectativas realistas, pois o corpo de cada pessoa reage de uma forma diferente. Não há um prazo fixo, mas é possível apresentar marcos temporais baseados em dados de recuperação típicos.

A trajetória de recuperação aponta para uma melhora progressiva que pode se estender por até 12 meses. Por exemplo, muitos estudos mostram taxas de continência crescentes em marcos como 1, 3, 6 e 12 meses após a cirurgia.

O mais relevante é que a vasta maioria dos homens experimenta uma melhora significativa ao longo do primeiro ano.

Exercícios do assoalho pélvico: eficácia comprovada na recuperação

Os exercícios do assoalho pélvico pós prostatectomia funcionam mesmo? A resposta é um categórico sim. O treinamento da musculatura do assoalho pélvico é a primeira linha de tratamento conservador recomendada por diretrizes internacionais.

A AUA (American Urological Association – Associação Americana de Urologia, uma organização profissional para urologistas) recomenda oferecer os exercícios de treinamento do assoalho pélvico no pós-operatório imediato, pois eles têm um impacto positivo no “tempo até a continência”.

Além disso, o biofeedback, que ajuda a pessoa a ter consciência da contração muscular, pode potencializar os ganhos no curto e médio prazo, enquanto a eletroestimulação não demonstra um benefício consistente.

Começando os exercícios: um guia simples

A estrutura geral dos exercícios deve incluir ativações rápidas (contrair e soltar) e sustentadas (contrair e manter), sempre com atenção à respiração, seguida de um período de descanso.

O progresso é gradual, começando deitado e avançando para posições sentado, em pé e, por fim, integrando os exercícios em atividades funcionais do dia a dia. Mas é importante que esses exercícios sejam acompanhados de um profissional capacitado.

Exercícios com cateter: o que saber

É possível, sim, começar alguns exercícios mesmo com o cateter, porém, a equipe assistente deve individualizar o início e os ajustes. É crucial evitar o esforço abdominal e garantir que as técnicas estejam corretas para não prejudicar a recuperação. O foco inicial é aprender a isolar e ativar corretamente a musculatura.

Ferramentas de apoio: biofeedback, eletroestimulação e aplicativos

A adesão aos exercícios e a técnica correta são fatores cruciais para acelerar a recuperação da continência. Neste sentido, alguns recursos de apoio podem fazer toda a diferença. Para a adesão, o biofeedback do assoalho pélvico após prostatectomia, especialmente quando supervisionado por um profissional, melhora o aprendizado motor e a recuperação precoce.

Por outro lado, a evidência sobre a eletroestimulação é insuficiente para justificar seu uso rotineiro, ou seja, não há dados robustos que comprovem um benefício adicional significativo.

Contudo, o mHealth (uso de dispositivos móveis para a prática da medicina e saúde pública), que inclui aplicativos e suporte digital, pode facilitar a prática regular dos exercícios e o autocontrole dos sintomas. Existem exemplos de estudos que demonstram como esses recursos podem ser valiosos no período perioperatório, ajudando os homens a manterem a rotina de exercícios.

Seu cronograma de recuperação: do pós-cirúrgico ao primeiro ano

Ter um cronograma de recuperação pós prostatectomia é fundamental para guiar o paciente e sua família. Este roteiro inclui autocuidados e pontos de reavaliação importantes ao longo do ano:

  • Semanas 0–6: O foco principal é aprender e dominar a técnica correta dos exercícios do assoalho pélvico, além de manter um diário miccional e desenvolver hábitos saudáveis. Este é o período do acompanhamento inicial intensivo com a equipe de saúde.
  • Semanas 6–12: Com a técnica já estabelecida, é hora de intensificar o PFMT conforme a tolerância do paciente. O monitoramento contínuo da evolução objetiva é essencial.
  • Mês 3–6: Caso a resposta aos exercícios seja pouca, é importante reforçar a supervisão profissional e, se indicado, utilizar o biofeedback para otimizar os resultados.
  • Mês 6: Se a sintomatologia de incontinência for incômoda e não houver melhora apesar das medidas conservadoras, a diretriz da AUA já sugere que é um momento apropriado para discutir opções cirúrgicas.
  • Mês 12: Este é considerado o tempo para uma decisão cirúrgica, caso a incontinência persista. A janela de 12 meses é um marco importante estabelecido pela AUA para reavaliar a necessidade de intervenções mais invasivas.

Cirurgia robótica e continência: há uma vantagem?

Avanços como a cirurgia robótica da próstata representam um marco na urologia moderna.  Revisões e séries de casos têm demonstrado melhora mais rápida da continência com abordagens cirúrgicas e tecnologias que preservam estruturas delicadas, como as técnicas de preservação do espaço de Retzius.

Essas abordagens, frequentemente utilizadas na cirurgia robótica, podem resultar em altas taxas de continência em 3 a 12 meses após o procedimento.

No entanto, é importante notar que, ao longo do tempo, os resultados entre as diferentes técnicas tendem a convergir.

Quando as cirurgias anti-incontinência são uma opção?

Para quem não respondeu às medidas conservadoras, o tratamento cirúrgico para incontinência pós prostatectomia surge como uma opção de escalonamento. É um passo importante para restaurar a qualidade de vida.

As diretrizes sugerem que a cirurgia anti-incontinência pode ser considerada a partir de 6 meses após a prostatectomia, se o quadro estiver estável ou sem melhora significativa, mesmo com as terapias conservadoras. Uma avaliação formal é recomendada até os 12 meses.

Há, entretanto, cautela na indicação do sling para casos de incontinência severa, onde outras opções podem ser mais eficazes.

Mantendo a disciplina: estratégias para a adesão aos exercícios

Manter a adesão aos exercícios do assoalho pélvico no dia a dia pode ser um desafio. Barreiras comuns incluem a dor, a insegurança sobre a técnica e, muitas vezes, o simples esquecimento na rotina agitada. Felizmente, existem soluções para superar esses obstáculos.

A supervisão profissional recorrente e o reforço da técnica correta são fatores cruciais para aumentar a adesão, isso porque a orientação especializada ajuda a construir confiança e a garantir que os exercícios estejam sendo feitos da maneira certa, o que, por sua vez, leva a melhores resultados e à motivação para continuar.

Além disso, estratégias comportamentais, como o uso de aplicativos, lembretes no celular ou um diário de prática, podem facilitar a continuidade e o engajamento com os exercícios. Essas ferramentas digitais promovem a autodisciplina e a consciência sobre o progresso.

Para ajudar a integrar essa prática em sua vida, trouxemos um checklist prático que você pode implementar hoje:

  • Escolha horários fixos no seu dia para praticar, como ao escovar os dentes ou durante uma pausa no trabalho.
  • Crie um ambiente tranquilo e sem distrações para seus exercícios.
  • Use lembretes no seu telefone para não esquecer as sessões.
  • Anote seu progresso em um pequeno diário ou em um aplicativo, celebrando as pequenas vitórias.
  • Peça a um profissional que revise sua técnica periodicamente para garantir que está fazendo certo.

Fique atento: quando procurar seu urologista novamente

A recuperação da continência é uma jornada, e saber quando procurar um urologista para tratar a incontinência é crucial. O objetivo é sempre buscar o melhor resultado para sua qualidade de vida.

Se, apesar dos exercícios e do acompanhamento, a incontinência persistir, impactando significativamente sua rotina, ou se surgirem dúvidas sobre a progressão do tratamento, é fundamental agendar uma nova consulta.

Embora estejamos trazendo a você informações valiosas, nada substitui a avaliação médica individualizada. Seu urologista poderá reavaliar seu quadro, considerar a intensificação das terapias conservadoras ou, conforme o cronograma de recuperação, discutir as opções cirúrgicas disponíveis, como o sling ou o esfíncter artificial. Não hesite em buscar orientação profissional sempre que sentir necessidade.

Exercícios do assoalho pélvico: um guia prático para começar

Para dar os primeiros passos nos exercícios de assoalho pélvico, um micro-roteiro pode ser muito útil, sempre lembrando que a supervisão de um fisioterapeuta especializado é o ideal para garantir a técnica correta e a segurança.

  1. Comece deitado: Deite-se de costas, com os joelhos dobrados e os pés apoiados no chão. Esta posição facilita a percepção dos músculos do assoalho pélvico.
  2. Identifique os músculos: Imagine que você está tentando parar o fluxo da urina ou segurar um pum. Contraia os músculos ao redor do ânus e da uretra, elevando-os suavemente para cima e para dentro. Evite contrair os glúteos, coxas ou abdômen.
  3. Respire corretamente: Mantenha a respiração normal durante a contração. Não prenda a respiração.
  4. Contrações lentas e rápidas: Faça contrações lentas, mantendo por 3 a 5 segundos e depois relaxando por igual período. Em seguida, faça contrações rápidas, contraindo e relaxando rapidamente.
  5. Progresso gradual: À medida que ganha controle, passe a fazer os exercícios sentado, depois em pé e, por fim, integrando-os em tarefas cotidianas, como ao levantar-se de uma cadeira ou ao tossir.
  6. Descanse: É tão importante contrair quanto relaxar. Certifique-se de relaxar completamente os músculos entre as repetições.
  7. Registre seu progresso: Anote quantas repetições e séries você consegue fazer, e perceba as melhorias ao longo do tempo.

Sua jornada de recuperação: passos para o sucesso e o diálogo com seu médico

A recuperação da continência pós prostatectomia é um processo que, embora possa ter seus desafios, oferece uma trajetória clara de melhora. Você agora tem um roteiro mais claro sobre como abordar essa fase. A chave está em combinar exercícios do assoalho pélvico feitos corretamente, com o uso de ferramentas de reforço como o biofeedback e aplicativos, e reavaliar o progresso em pontos-chave.

Lembre-se de que seu urologista é seu principal parceiro nessa jornada. Para otimizar suas consultas, sugerimos que leve uma lista de perguntas, tais como:

  • Qual a melhor forma de eu continuar ou intensificar meus exercícios do assoalho pélvico?
  • Devo considerar a supervisão de um fisioterapeuta ou o uso de biofeedback?
  • Qual o prazo esperado para que eu perceba melhorias significativas?
  • Caso a incontinência persista, quais são as opções cirúrgicas, como o sling ou o esfíncter artificial, e qual seria a mais indicada para o meu caso?

Profissionais comprometidos com a excelência, como o Dr. Marco Nunes, especialista em cirurgia robótica da próstata e quem nos forneceu as informações para este artigo, estão à disposição para guiá-lo.

Ao se munir de conhecimento e manter um diálogo aberto com seu médico, você estará no caminho certo para recuperar sua tranquilidade e confiança.

Foto:FREEPIK

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