Por Que Não Haverá Outro Michael Jackson
Com a constatação do título, eu começo este texto fazendo alguns apontamentos que sustentam essas palavras…
O primeiro deles é que Michael fez sucesso na infância, adolescência e fase adulta, até sua morte — um feito que beira o impossível de ser repetido.
Segundo: ele inovou a TV com os videoclipes. Ele não foi o primeiro, mas significativamente elevou a qualidade. Então, videoclipes não serão mais criados…
Terceiro: vendeu entre 345 e 750 milhões de discos; há até o mito do bilhão. (Thriller, seu álbum de 1982, é o disco mais vendido de todos os tempos, com estimativas que variam entre 66 e 120 milhões de cópias.) Aqui, há duas coisas que beiram o improvável: a primeira é vender esse número de cópias em um mundo onde, diariamente, são adicionadas às plataformas de streaming entre 70 mil e 120 mil músicas novas; e a segunda é vender tudo isso em discos de vinil e CDs!
Quarto: ser conhecido em todo o planeta (praticamente) em um tempo em que não existiam redes sociais…
Então, quando um ídolo pop de algumas gerações morre, ele comove e, principalmente, se eterniza. Mas eterniza por quê?
Existe um efeito chamado relação parassocial, que explica parte disso. As relações parassociais são conexões unilaterais em que fãs, simpatizantes e/ou seguidores investem sentimentos e tempo em celebridades — celebridades que não fazem a menor ideia de que esse sujeito existe; por isso, unilateral. Mas, mesmo sem a retribuição desses sentimentos, o sujeito continua investindo.
Esse tipo de relação pode gerar inspiração, companhia, inveja e até borderline… E milhares de imitadores de qualidades excepcionalmente brilhantes e excepcionalmente medíocres, fazendo com que, se a palavra ridículo tivesse vida, se mataria de vergonha!
Quando é lançado um filme biográfico, “chapa-branca” (onde é autorizado pela família e só conta a parte boa da história, com uma “coisinha” ali ou outra aqui, que pode deixar alguma freira corada), estrelado pelo sobrinho do artista, os fãs, affairs imaginários e afins de Michael ressurgem, lotam os cinemas e saem chorando, rindo, dançando, pulando com o resto de energia que sobrou, já que gastaram parte dela conversando, berrando e atrapalhando quem queria apenas assistir ao filme — prática reforçada pelos “filmes” da Marvel.
Michael Jackson é um dos casos mais estudados da cultura pop quando se fala em trauma infantil, construção de identidade, compulsão estética e comportamento regressivo. Porém, é importante separar fatos documentados de especulações. O meio psi consegue propor interpretações plausíveis sobre sua personalidade, mas não fazer um “diagnóstico definitivo” sem avaliação clínica direta. Isto seria um absurdo!
Diversas biografias e entrevistas relatam que Michael cresceu sob extrema pressão do pai, durante os anos do The Jackson 5. São descritos episódios de humilhação, críticas constantes sobre sua aparência e punições físicas. Pela ótica freudiana, experiências traumáticas precoces podem gerar insegurança narcísica, fixações emocionais e regressão psicológica (o adulto busca voltar simbolicamente à infância), o que pode aumentar vulnerabilidades emocionais e transtornos de personalidade na vida adulta.
Existe uma interpretação de que a construção de Neverland Ranch (Neverland — a Terra do Nunca, é o lar doce lar de Peter Pan, aquele que nunca se tornou adulto — olha o Freud mastigando o charuto e tendo material para mais 200 livros!) foi uma tentativa simbólica de recriar a infância perdida: um espaço fantasioso, lúdico e sem as cobranças que marcaram sua juventude.
Há, portanto, uma excentricidade como mecanismo de compensação. Comportamentos repetitivos costumam surgir como formas de compensar sofrimento, recuperar sensação de controle, reduzir ansiedade e obter validação social. Ou seja, ser “normal”, mesmo não sendo — sob o ponto de vista comportamental, estético e profissional.
Michael vivia sob uma — insuportável — observação pública desde criança. Isso pode contribuir para um fenômeno conhecido como identidade performática: a pessoa passa a existir mais como personagem do que como indivíduo. O que explica roupas teatrais e infantis, voz infantilizada em entrevistas, isolamento social e o fascínio por fantasia e escapismo (se quiser enveredar por esse mundo do escapismo, leia: C.S. Lewis e J.K. Rowling). Ou, simplesmente, um adulto emocionalmente preso a necessidades infantis não resolvidas.
De cirurgias plásticas para mudança de imagem à mudança de cor — causada pelo vitiligo (confirmado em autópsia) —, que ajuda na perpetuação da mágica em torno do mito e no reforço de teorias como insatisfação crônica com a aparência e distorção da autoimagem, como resultado de um conflito entre identidade real e identidade idealizada. Porém, é preciso ter em mente que trauma não inocenta automaticamente ninguém; mas também não permite diagnósticos morais simplistas feitos por gente desocupada.
Michael foi um perfeccionista artístico, com inteligência criativa incomum, obsessão pelo trabalho e uma enorme necessidade de reconhecimento, que fez da arte a sua vida.
Em filosofia estética, não existe uma única definição de “arte”. Pelo contrário: a arte é um conceito “aberto, histórico e controverso“, que muda conforme o contexto cultural; mas uma das definições diz que a arte é uma forma de “expressão da experiência humana“, que desperta emoções, percepções e reflexões e aparece desde as cavernas até hoje, manifestando-se em várias linguagens: literatura, pintura, dança, música etc.
Apesar de momentos fora da mídia positiva e envolto em problemas judiciais e polêmicas, Michael morreu no auge, como os ícones da cultura pop Elvis, Marilyn Monroe, Bruce Lee, Janis Joplin, entre outros que se tornaram imortais por não terem envelhecido e serem relegados a uma lembrança viva do que foram em seu ápice…
Confesso que fico em dúvida quando um mero imitador, do tipo patético que ganha dinheiro às custas do ídolo e que se comporta como “dono” do imitado, se autointitula artista; mesmo a cópia sendo uma das artes mais difíceis de ser fiel ao original, para mim, isso sempre soa apenas como um paspalhão iludido.
Portanto, Michael foi um artista com perfil profissional e pessoal e com um carisma muito além do convencional, mesmo para estrelas de Hollywood. Para Max Weber, embora sociólogo e não filósofo estrito, carisma é uma qualidade considerada extraordinária em alguém; mas o ponto principal é: ela existe socialmente porque é reconhecida pelos outros. Não basta alguém “ter”; os outros precisam acreditar. Senão, será apenas o cara famoso da família, quando muito!
Com Michael, houve o espetáculo completo: música, dança, magia e mistério — tudo em um só artista! Essa é a razão que cativou e ainda cativa grandes audiências, e é por isso que “a raposa sempre volta”, como disse Saint-Exupéry no clássico O Pequeno Príncipe. Ao sermos cativados, segundo a raposa, passamos a depender do outro e a vê-lo como essencial em nossa vida. Esse laço criado com um artista é o que o torna imortal e é — também — uma das razões pelas quais a cinebiografia “Michael” seja uma das maiores bilheterias de 2026.
JEFFerson Fernandes


