FUI ASSISTIR A AUTOBIOGRAFIA AUTORIZADA, DE PAULO BETTI!
A palavra biografia vem da junção de dois radicais gregos: bíos (vida) e gráphein (escrever ou registrar), enquanto auto tem origem no grego autós: “por si mesmo”, “o próprio” ou “independente”. O quanto de sincero pode haver em uma autobiografia autorizada sem se tornar um sincericídio? Aparentemente, Paulo não se preocupa em contar apenas suas glórias, mas também os ridículos de sua vida…
O espetáculo é mais uma conversa olho no olho — literalmente — entre artista e público.
Um à parte: em 2010, Paulo esteve em um evento de cinema no Teatro Armando de Ré, em Suzano (SP), onde um curta-metragem do qual participei como roteirista e ator (voz), Eu Posso, Mas Não Devo, recebeu um grande incentivo de sua parte. Esse gesto demonstrou a grandeza e a generosidade de um artista que não precisava fazer aquilo.
De volta ao espetáculo, no Teatro Ariano Suassuna em Jacareí— um teatro que honra seu nome —, climatizado, espaçoso, com boa visibilidade, boa acústica, fácil acesso e longe do trânsito. Há uma passagem histórica em que Paulo se refere à vinda dos avós da Itália, quando a escravidão havia acabado no Brasil, o que me lembrou uma passagem do livro A Elite do Atraso, de Jessé Souza, na qual é narrado o momento da chegada dos italianos para trabalhar no Brasil, em concorrência direta com os ex-escravizados (Jessé trabalha essa questão quase como um arqueólogo em seu livro).
A peça tem muitas referências musicais: Cascatinha e Inhana, Inezita Barroso, Dorival Caymmi, Saudade da Minha Terra, além de menções a filmes como Metrópolis, de Fritz Lang, passando pelo surrealismo e pela poesia. Mesmo sendo uma peça popular, é preciso, pelo menos, um pouco de repertório cultural para compreender todas as referências — o que sempre é bom para todo mundo!
Há também menções ao rádio e a como ele influenciava as pessoas, especialmente as crianças, com músicas, radionovelas e transmissões esportivas. Paulo é um ator que consegue ser leve e engraçado com naturalidade – sem forçar -, o que surpreendeu algumas pessoas (segundo comentários que captei involuntariamente ao ouvir conversas do lado de fora do teatro — afinal, como escrevi em outro texto, não é aconselhável que um senhor, em meio a outras pessoas, tape os ouvidos enquanto berra: “Lá, lá, lá, lá, lá!”).
Paulo desce do palco para cumprimentar a plateia — que bom que a Covid passou — e, a todo momento, interage com o público, inclusive por meio de músicas. Isso me lembrou muito o Teatro Oficina, onde as formas tradicionais de interação com a plateia foram modificadas, seguindo, acredito eu, autores como Bertolt Brecht.
Um detalhe que chamou minha atenção foi a menção, em determinado momento, a um médico chamado Espártaco. O nome aparece também no texto do livro em alusão ao filme estrelado por Kirk Douglas. Eu, porém, prefiro usar o mesmo autor para fazer alusão a outra obra: 2001: Uma Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick, que, por sua vez, remete à Odisseia de Homero. E, nesta odisseia — a de Paulo —, assistimos à trajetória de um homem que, por meio de sua memória autobiográfica, nos apresenta sua vida através da arte, profundamente influenciada, sobretudo, pela família.
O sociólogo francês Maurice Halbwachs defendia que as memórias individuais são moldadas pelos grupos aos quais pertencemos. Ou seja, ninguém lembra sozinho; lembramos a partir da família, da comunidade e da cultura. Essas lembranças podem nos oferecer uma certeza ou, pelo menos, uma pista para responder à famosa pergunta: “Quem sou eu?”. Para Paul Ricoeur, responder a essa pergunta implica contar uma história.
Mais do que relatar fatos do passado, Paulo reconstrói simbolicamente sua própria história e reafirma os vínculos afetivos, culturais e sociais que moldaram — e continuam moldando — sua existência. Com slides, boa iluminação, ritmo e entusiasmo, ele parece, em alguns momentos, uma criança que deseja contar “as suas coisas” para as pessoas e que, com alegria, atrai e envolve os adultos e as outras crianças ao seu redor.
Aqui cabe mais um à parte. Em Der Dichter und das Phantasieren (1908), de Freud — publicado em português com títulos como Escritores Criativos e Devaneios, O Poeta e o Fantasiar ou O Escritor e a Fantasia, dependendo da edição —, encontramos a seguinte passagem:
“O escritor criativo faz o mesmo que a criança que brinca. Ele cria um mundo de fantasia que leva muito a sério, isto é, investe nele grandes quantidades de emoção, enquanto o separa nitidamente da realidade.”
Antes, porém, o pai da psicanálise escreve:
“Toda criança que brinca comporta-se como um escritor criativo, criando um mundo próprio ou reorganizando os elementos de seu mundo de uma forma que lhe agrada.”
Assim, o artista e o contador de histórias possuem algo em comum com a criança que brinca, o que resume a tese central do ensaio de Freud e ajuda a explicar o entusiasmo de Paulo, mesmo se tratando de um ator consagrado que poderia simplesmente estar no palco representando…
No final, disse a ele:
— Vamos ver se sua memória é boa. Em 2010, houve um festival de cinema em Suzano…
E, antes mesmo que eu terminasse a pergunta, respondeu prontamente:
— Eu estive lá!
Se tiver oportunidade, vá assistir ao espetáculo com os ouvidos abertos para boas histórias.
JEFFerson Fernandes


