Colunista Jefferson FernandesEntretenimento

O VÍCIO NAS REDES SOCIAIS (A DROGA LEGAL)

O vício nas redes sociais parece assunto velho e até é, embora permaneça atual. Mas, ao que tudo indica, estar conectado, com o maior número de “amigos” possível, fotos e vídeos esfregando na cara do “amigo” felicidade e sucesso, além do maior número de curtidas e comentários, começou a tomar um caminho de um rio de vaidade que desagua numa patologia chamada narcisismo.

Ao contrário do que diz a cultura popular (a cultura popular adora se apropriar de termos específicos, transformando tudo em algo genérico, apenas para insultar o outro, tornando quem fala no geniozinho da cidade), existem critérios para fechar um diagnóstico de transtorno de personalidade, especialmente narcisista, já que existem outros transtornos que repetem algumas características.

Mas muito mais que “pessoas superficiais” o vício nas redes demonstra ser um problema muito mais moral/psicológico do que estrutural…

O uso compulsivo das redes sociais funciona como um desejo de reconhecimento que deixa o “ego feliz“… A necessidade de aprovação pelo outro (conhecido e/ou desconhecido) no número de seguidores, de curtidas e comentários pode ser entendida como uma forma contemporânea da busca da validação narcísica, para que se possa sustentar a própria imagem. Cada interação serve como uma espécie de espelho ampliado: ela reforça ou ameaça essa imagem do espelho (lembremonos de que a imagem do espelho sempre é diferente da real). A luta para diminuir a distância de “quem eu sou” e “quem eu deveria ser”…

A COMPRA DE CURTIDAS E SEGUIDORES

Quando uma pessoa compra seguidores e curtidas, ela está tentando inflar artificialmente esse “eu ideal” que ela mostra para as pessoas e muitas vezes para si mesma, numa tentativa de vencer sentimentos de invisibilidade e mediocridade, simulando reconhecimento. No sistema atual, visibilidade é capital social. Ter muitos seguidores sugere relevância e relevância gera oportunidades. Mas não se iluda, essa batalha começa e termina com o mesmo perdedor: a própria pessoa! (qualquer um que tenha mais de dois neurônios, que se comunicam entre si, percebe a farsa e normalmente ri ou sente pena).

Por outro lado, na sociedade contemporânea, o valor de uma pessoa é constantemente “medido” por indicadores visíveis, como o número de seguidores. O que transforma a identidade em algo que precisa ser exibido e validado publicamente o tempo todo… Além de realizar o velho sonho de ser famoso, como os artistas do século passado, que eram famosos pela sua arte (e tudo que era envolvido nela).

De uma maneira compulsiva, a pessoa emocionalmente dependente volta constantemente à rede em busca de pequenas doses de satisfação, nas novas curtidas e comentários, e posta mais, compra mais, fotografa e filma mais, e confere as novas interações… A imagem é do cão correndo atrás do próprio rabo.

Essa dinâmica contribui para várias questões:

1. O aumento do estresse (eu preciso aparecer e ser).

2. A redução do bem-estar (a dedicação não dá espaço para a vida real).

3. A fragilidade da autoestima (a autoestima passa a depender de métricas externas que só existem na vida das redes – em alguns casos, fora delas também).

Mas tudo na sociedade atual produz insegurança para os seres das redes sociais e também para os de fora delas… Pois, tudo é exposto, tudo é comparável, tudo pode ser julgado rapidamente e por qualquer um, sem o menor critério de qualquer coisa!

O vício sugere algum nível de insegurança, necessidade de validação e sensibilidade à opinião pública. A insegurança em si não é um problema, ela é uma função da mente, a questão é como ela opera: ajuda a pessoa a se ajustar à realidade ou começa a dominar o comportamento… Insegurança saudável ou patológica.

COMO OS ALGORITMOS TIRAM PROVEITO DESSAS PESSOAS

As redes sociais usam algoritmos baseados em engajamento. Ou seja, quanto mais tempo você fica, interage e volta, melhor para a plataforma. Para isso, algumas estratégias são adotadas:

Recompensa variável. Você posta, recebe poucas curtidas, depois mais e depois menos, essa imprevisibilidade gera: compulsão. O que Freud descrevia como: busca pelo prazer.

Comparação constante, o algoritmo (ao que tudo indica, do demônio) tende a mostrar pessoas mais bem-sucedidas, mais bonitas, mais populares… Resultado dessa equação demoníaca: o aumento da sensação de inadequação e da necessidade de validação!

O sistema aprende rápido: o que te prende, o que te afeta, o que você compara e passa a te entregar mais disso. Se a pessoa demonstra insegurança, mesmo indiretamente, o algoritmo tende a… Bingo!!! E te mantém engajado!

E aí, entram em cena: vendedores de seguidores, curtidas e comentários falsos. Influenciadores e gurus de toda a espécie (no meu tempo se chamavam picaretas!).

Por fim, o viciado sente valor, mas de forma instável, depende do olhar do outro para se regular, constrói uma versão idealizada de si e usa métricas sociais como prova de existência e relevância…

JEFFerson Fernandes

JEFFernandes, Psicanalista em formação,Jornalista, Produtor de áudio e Locutor

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