SILVIO SANTOS É UM ÍCONE?
Assistindo ao jogo do Brasil, pelo SBT, percebo, no intervalo, uma animação ou boneco animado do Silvio Santos… E o boneco continuou, mesmo depois da Copa.
Confesso que pensei, no primeiro momento, “oportunismo puro e simples“, depois, “coisa da Copa“, e esqueci… Porém, pensando um pouco melhor, entendi que há uma outra ação, fora a de marketing com a imagem da emissora, mas uma tentativa de eternizar o seu criador, como uma espécie de Walt Disney, só que, ao invés de um criador de desenhos animados, um criador de entretenimento televisivo.
Deixando de lado a história de Silvio Santos, que pessoas entre 20 e 80 anos conhecem, quero focar no símbolo, no que representa no imaginário popular…
Walt Disney foi e ainda é um poderoso produtor de símbolos do inconsciente, mesmo a Disney — enquanto produtora — sendo o que é hoje, ou seja: quase nada infantil, quase nada do que foi no século passado.
As animações Disney trabalharam muito com a elaboração de medos fundamentais como o abandono, a morte, a inveja, o amadurecimento, o ciúme, a perda dos pais… Ao invés de eliminar essas angústias, a Disney as transformou em narrativas simbólicas, ajudando a criança, no começo da vida, a uma “boa digestão” de temas tão indigestos…
Numa perspectiva junguiana, Disney repetiu, através de seus personagens, estruturas universais como o herói, a sombra, a grande mãe, o velho sábio; sem contar a jornada de transformação… Por isso, as histórias da Disney soam familiares para todos os tipos de famílias, e nada disso foi aleatório.
Disney ajudou a construir uma linguagem compartilhada mundialmente, além de difundir os valores do famoso “American Dream“, hoje mais próximo de um “Nightmare Dream“…
Por outro lado, o Brasil tem Silvio Santos. E qual a relação?
A relação entre Walt Disney e Silvio Santos pode ser estabelecida principalmente no campo da construção da imagem pública, da produção de mitos culturais e da comunicação de massa. Não significa que sejam figuras equivalentes, mas que ambos se tornaram símbolos que transcenderam suas biografias.
Elementos como “homem-personagem”, “o pai simbólico”, “aquele que veio do nada e conquistou o mundo”.
Apesar das semelhanças simbólicas, há uma distinção importante:
Walt Disney tornou-se um mito criador: sua imagem remete, sobretudo, ao universo da imaginação, dos personagens e suas narrativas ficcionais.
Silvio Santos tornou-se um mito mediador: sua imagem está ligada à interação direta com o público, ao entretenimento televisivo e à figura do comunicador.
Em ambos os casos, a pessoa histórica foi progressivamente revestida por uma imagem simbólica que ganhou vida própria no imaginário coletivo, justamente por participar da vida pública.
“O espetáculo não é um conjunto de imagens, mas uma relação social entre pessoas, mediada por imagens.”
A obra “A Sociedade do Espetáculo“, de Guy Debord, poderia descrever esses dois ícones: Disney e Silvio!
Os dois não representam apenas imagens famosas; eles representam formas pelas quais milhões de pessoas passaram a experimentar: sonhos, infância, televisão, entretenimento, consumo e identidade cultural.
Enquanto Disney praticamente redefiniu o cinema de animação, Silvio Santos ajudou a definir a televisão popular brasileira.
Você é capaz de enumerar quantas obras de Disney fizeram você sonhar, se emocionar, se divertir?
E quantos programas, desenhos, acontecimentos na TV de Silvio Santos fizeram você rir, se inspirar, através de seus “personagens/artistas”, senão com o próprio Silvio, que sempre escolheu/liderou o seu “canal de televisão”, usando mais a emoção do que a razão (programas, trocas de horários, polêmicas, artistas talentosos e outros não, entre outras coisas), além de candidatura à Presidência, relógio falante e bonequinho colecionável?
É justamente pela iconoclastia — entendida não no sentido religioso estrito de destruição de imagens, mas como a ruptura com convenções e modelos estabelecidos — que podemos aproximar, simbolicamente, Walt Disney e Silvio Santos.
Disney rompeu com a ideia de que animação era apenas entretenimento secundário e infantil. O desenho foi para o cinema, virou marca, parque e público popular. Mickey Mouse é seu maior símbolo.
Silvio Santos rompeu com o modelo tradicional de apresentador e com a distância entre televisão e público popular… O próprio Silvio Santos transformou sua pessoa em personagem e, depois, em marca. Ele mesmo é o maior símbolo do SBT. Ele é o homem que virou instituição e a pessoa que se transformou em objeto afetivo.
Para algumas gerações, Silvio significa a lembrança de infância, domingos, família reunida, concursos, músicas, humor, ascensão social, sonhos de ganhar dinheiro, cultura popular…
Diferenças curiosas entre os dois (enquanto ícones): Disney construiu uma mitologia empresarial que transcendeu sua pessoa. Silvio Santos construiu uma empresa que permaneceu profundamente dependente de sua persona.
A cultura americana desenvolveu uma forte tradição de transformar figuras da cultura popular em marcas permanentes. A imagem não precisa desaparecer quando a pessoa morre; ao contrário, ela pode continuar produzindo valor simbólico e principalmente, econômico. Veja, por exemplo, Walt Disney, Elvis Presley, Marilyn Monroe, Michael Jackson… Nenhum deles precisa estar vivo para continuar sendo o que foram (ou o que ainda são — para não irritar ninguém! — e até porque, para algumas pessoas, estes artistas ainda vivem, numa ilha ou em Paris…).
A morte, paradoxalmente, pode congelar a imagem no auge de sua representação simbólica. O passado vira mitologia.
Já no Brasil, frequentemente existe uma relação mais ambígua com o passado. O novo tende a substituir o antigo, porque, como dizem, “isso é coisa do passado”, e, na TV, isso é muito claro, inclusive até com quem ainda não morreu!
Numa perspectiva de Stuart Hall, em que representação não é simplesmente apresentar uma realidade existente, mas participar da construção de significados pelos quais essa realidade é compreendida.
Então, Disney não representa apenas o sonho americano — ele ajuda a produzir culturalmente o que se entende por sonho americano… Por outro lado, Silvio não representa somente o imaginário popular brasileiro — ele ajuda a produzir e organizar uma determinada ideia de “popular”, “prosperidade”, “sucesso” e até de “brasilidade”.
Por fim, Silvio foi iconoclasta, a etimologia do termo vem do grego “eikōnosklástēs“, formado por “eikōn“ (imagem) e “kláō“ (quebrar), então ele rompe, quebra com modelos estabelecidos de televisão, mas agora enfrenta um dilema:
O que fazer quando a própria ruptura vira tradição? Criar uma ruptura que rompa com a ruptura?
Silvio destruiu certos modelos e criou um novo modelo, depois tornou-se um modelo, e agora o SBT precisa preservar esse modelo sem ficar aprisionado nele… (Se você souber a resposta para esta pergunta, envie seu currículo para o SBT!)
Portanto, o boneco animado de Silvio Santos carrega muito mais que uma simples animação!
JEFFerson Fernandes


