A ÚLTIMA SESSÃO DE FREUD NO TEATRO DE SÃO JOSÉ DOS CAMPOS
Ao som de Moonlight Serenade, de Glenn Miller, entre outras pérolas musicais, esperamos A Última Sessão de Freud começar às 17h. O espetáculo só teve início às 17h19, com uma tolerância — imagino — por conta da ligeira chuva e do estacionamento do shopping, onde muitas pessoas validavam o ticket antes da entrada, algo que nem era obrigatório, como fomos avisados depois… Ainda bem que o Freud não foi interpretado pelo Antonio Fagundes, ou neste momento eu estaria escrevendo sobre uma peça que começou com metade do público dentro e a outra metade fora, além de processos e muito xingamento…
O teatro do shopping tem boa acústica, mas sugiro que seja feito um isolamento acústico no teto, já que, com a chuva, as pessoas do fundo tiveram certa dificuldade para ouvir.
Começa o espetáculo! De maneira inteligente e bem-humorada, Odilon Wagner, já com Freud “encarnado”, dá o aviso ao microfone e, nele, pede duas vezes que desliguem os celulares, pois o som e a luz atrapalham a concentração dos atores. Se atrapalha quem está assistindo, imagine os atores.
Obviamente, o aviso foi inútil, pois algumas pessoas (poucas, pelo que vi) tiraram fotos, fizeram vídeos curtos — tudo pelo vício das redes sociais, assunto que já comentei nesta coluna e ao qual prefiro não voltar…
O ator Marcelo Airoldi, ao conversar com o público no final, comentou que os celulares incomodaram muito e que, por duas vezes, quis parar a peça. Na minha opinião, os atores deveriam ter um gerador de pulso eletromagnético — igual ao do filme Matrix que, quando acionado, emite ondas de energia de alta frequência desligando/fritando todas as máquinas por perto —, ou então um controle remoto de assento ejetor para quando algum infeliz ligasse o celular… Desde o lançamento do celular, ouvimos esse aviso antes das sessões de teatro e cinema e, até hoje, ainda é preciso repeti-lo?
Déficit cognitivo ou a sensação de que o mundo gira em torno de mim? Ou ambos???
Na plateia, muitos terapeutas, psicanalistas, pseudopsicanalistas, gente da moda e gente da além-moda — ou metamoda — desfilavam com vestidos de gala, roupas de cowboy contido, sapatênis e camisetas bad boy. Escuto conversas porque não há como evitar; tampar os ouvidos com os dedos e cantarolar “lá, lá, lá” me colocaria em uma posição infantil, o que seria um prato cheio para a plateia de analistas. Ainda assim, pude ouvir a conversa de um terapeuta que estava à minha frente… Em toda a minha vida, nunca escutei tantas vezes a palavra “tipo”.
Sobre a peça:
A peça é do dramaturgo Mark St. Germain e estreou oficialmente em 2010, nos Estados Unidos. Ela é baseada no livro The Question of God (Deus em Questão), de Armand M. Nicholi Jr., professor clínico de psiquiatria da Harvard Medical School.
A peça gerou um filme em 2023 — raso, por culpa do texto, e não dos atores — estrelado por Anthony Hopkins.
Nesta montagem, o cenário e a luz estavam incríveis. Houve um cuidado com a reprodução da sala de Freud que ajudou muito na imersão. Gostei de Odilon Wagner como Freud, diferente do Freud “piadista” de Anthony Hopkins, em 2023, e do Freud “assustado” de Montgomery Clift, em 1962.
O texto em si, como no filme, não aprofunda nenhuma discussão: primeiro, pelo tempo; segundo, para não ser taxado de ideológico — ou qualquer outra bobagem do tipo, dessas que as pessoas gostam de usar para rotular o trabalho alheio. Porém, a suposta discussão entre Freud e Lewis, ao longo da encenação, recupera, de certa maneira, a dimensão intersubjetiva que a psicanálise e a teologia, por vezes, elidem. Afinal, é sempre divertido assistir a uma discussão entre um ateu e um não ateu, mesmo quando o autor força um empate técnico em alguns momentos. Ainda assim, o texto traz, positivamente, uma reflexão sobre tolerância.
Para a alegria dos terapeutas, houve alguns highlights de psicanálise, teologia e “palestrinha” — a mesma palestrinha presente no filme de 2023. É bom lembrar que este é um texto escrito por um dramaturgo estadunidense, baseado na obra de outro estadunidense, e a psicanálise nos Estados Unidos possui um viés diferente da europeia; por isso, alguns dizem que Freud foi “domesticado” nos Estados Unidos… Então, quem foi assistir imaginando que teria uma aula de psicanálise caiu do divã!
A peça é um espetáculo pensado para agradar ao máximo um público bastante variado e, justamente por isso — além do talento dos atores —, lota a casa sempre.
JEFFerson Fernandes


