Uma parceria incomum de saberes circense e caipira

Não há saída para a humanidade fora da solidariedade. É dessa perspectiva que o espetáculo “Circo da Cuesta” traz uma contribuição singular às artes da cena ao fundir as linguagens circense e teatral à cultura caipira paulista sem nivelá-las por baixo. Ao contrário, a Cia. Beira Serra de Circo e Teatro, de Botucatu, promove bons achados nessa triangulação formalmente incomum.

O ato ou o efeito da espera funcionam como motores da dramaturgia. A entrega incondicional de trabalhadores e organizadores para entreter o público de uma quermesse no lugar da trupe contratada para tal, mas que não chega por causa da queda de uma ponte, é digna da capacidade de dar-se as mãos para remover pedras do meio do caminho. A missão vira um mutirão artístico e afetivo.

Essas mulheres e homens de um lugar imaginário, mas com pinta de que estão enraizados no interior paulista, súbito, exibem domínio da técnica e muita inspiração e sentimento ao executar números de improviso que em nada devem à performance de profissionais da lona e do palco. Revelam-se, assim, seres universais pela capacidade de engajar-se numa causa comum.

Ao destacar o saber e a capacidade de invenção popular, o rústico mote do roteiro ecoa o livro “Os Parceiros do Rio Bonito: Estudo Sobre o Caipira e a Transformação dos Seus Meios de Vida” (1964), clássico da sociologia nascido da pesquisa de campo do crítico literário Antonio Candido. Entre as décadas de 1940 e 1950, ele entrevistou e conviveu esporadicamente com moradores da região centro-sul do Estado, Botucatu incluída. Ao se debruçar sobre a poesia do “cururu”, dança cantada do caipira e versada em rimas, fez com que a teoria literária e o folclore derivassem para os meios de vida e as transformações provocadas pelo impacto do capitalismo, bem como as formas de resistência a elas.

No prefácio, Candido atentou para aqueles que foram a base de sua pesquisa. “Homens da mais perfeita cortesia, capazes de se esquecerem de si mesmos em benefício do próximo, encarando com tolerância e simpatia as evoluções de um estranho, cuja honestidade de propósito aceitaram, ou ao menos não discutiram, por polidez. Eram todos analfabetos, sendo alguns admiráveis pela acuidade da inteligência”.

“Circo da Cuesta” sintoniza essa irradiação no modo como se acerca com intimidade e dignidade da gente de seu quintal, de suas ancestralidades. A montagem proporciona uma complexa acepção do que é simples e um despojamento, não menos raro, do que se supõe virtuosístico – para não falar da demarcação de gênero a ser pontuada mais adiante.

E essa conversa se dá sem cerimônia ou inclinação ao politicamente correto. Rir de si mesmo, saudar o gesto e a língua consagrados pela comicidade do genial Mazzaropi, parodiar o “caipirês” fundindo-o ao jeito americano de exportar cultura, friccionar o cancioneiro de raiz com o “folk”, flertar com a estilização ou artificialização do “camp” e com a arte “näif”, enfim, são múltiplas as entradas para ler essa obra despida da ansiedade de se ser genuína – e, no entanto, tem sua cota de originalidade em muitos aspectos – ao saudar tradições caras à cidade onde a trupe atua há cinco anos.

O quarto espetáculo da companhia é lapidar do hibridismo que os fundadores Fernando Vasques e MiMi Tortorella, também atores e dramaturgos, praticam desde as próprias formações e pesquisas focadas em manifestações populares. Inclusive na pós-graduação, como compartilharam ao final da apresentação no 34º Festivale, ocorrida no Teatro Sesi São José dos Campos – instituição por meio da qual a Beira Serra foi contemplada este ano no programa Viagem Teatral/Produções Inéditas

Ao todo, são sete os artistas que dão vida a personagens arquetípicos, facilmente reconhecíveis, cujos intérpretes aos poucos agregam evoluções circenses específicas. Os trânsitos da representação aos números implicam eficiência técnica, o que se dá sem truques, apesar de a prestidigitação integrar o menu picadeiro de ações individuais ou coletivas, entre elas tecido acrobático, malabares, corda bamba e ocultação em baú (a chamada “mala moscovita”).

Essa diversidade é embalada pela música ao vivo levada pela dupla Rio Pardo e Mississípi (por Fernando Augusto e Dael Vasques). Eles dão o tom nos diálogos e nas interações do elenco com a plateia. A proposição empática acaba sendo mais arriscada do que a execução dos números de risco, de certa maneira esperados na troca com o público. Um elo em suspenso, ao sabor das exibições no ventre das narrativas. É preciso mais do que distribuir pé de moleque e cachaça para convencer adultos, adolescentes ou crianças a tomarem parte na proposta de coreografia em massa e baterem palmas cadenciadas para compor uma revoada de pássaros desde seus assentos.

O carisma, pode-se intuir, vem do bom humor desses jovens criadores. Curiosamente, inexiste a figura do palhaço, mas todos levam jeito para provocar riso a seu modo. Habilidade que também pode ser atribuída à rarefação do tempo estimulada pela encenação. Não se trata de duração, pois são pouco mais de 60 minutos, mas de qualidade das presenças nos lados de lá e de cá. O diretor convidado, Ronaldo Aguiar, despressuriza a convenção frenética do entretenimento fast-food e oferece uma qualidade de fruição aparentada do ritmo da vida interiorana. Uma preciosa cadência que causa desconfiança no início, sob o ângulo de quem mora na capital e também viu a estreia no Teatro Sesi São Bernardo do Campo, em agosto, mas não demora a fundamentar-se plenamente na construção de perenidade no terreiro da alteridade.

Enquanto os responsáveis pela quermesse Sá Marica (MiMi Tortorella) e Januário (Fernando Vasques) empenham-se em ciceronear a audiência e contornar o desfalque da trupe que seria a cereja no bolo da fogueira e dos comes e bebes, a patrona da festa, a fazendeira Tia Celeste (por Marina Lino), rouba a cena em intervenções etílicas terrestres e aéreas. Viúva, ela banca a brincadeira pública na vila e acaba protagonizando show à parte. Em vez de julgá-la moralmente, pela dependência química, mal que acomete milhões de brasileiros, o espetáculo faz contraponto ao recordar de seu marido, Cosme, fazendeiro de quem ela herdou a boiada e o café. Contudo, a riqueza de que sente falta seria a do “amor que um tinha pelo outro”.

Na condição de defunto, esse proprietário rural é edulcorado pela dramaturgia que perde a chance de problematizar as injustiças sociais, a concentração de renda que, historicamente, está na base das desigualdades brasileiras. A sobreposição de Cosme à figura do Pescador, numa sequência de vigor corpóreo-poético na corda bamba (por Willian Novak), bebe da terceira margem do contista João Guimarães Rosa e aplaina questões que são caras ao próprio escritor mineiro e inexoráveis ao pensamento de Candido (1918-2017). No referido estudo – objeto de sua tese – o crítico já discutia a necessidade de se implementar a Reforma Agrária que nunca se cumpriu a contento nos governos que vieram.

Os compadres Agostino (Guilherme Gasperine) e Geraldino (Willian Novak) cumprem com afinco os pendores bocó ou jeca. Fazem a linha auxiliar e colideram alguns números, como no jogo de malabares com tocos de árvores a serem usados para a fogueira e manejados com destreza pelos pares, ponto alto de conhecimento e domínio técnico da equipe que não derrubou nenhuma vez os objetos à medida que aumentava o grau de dificuldade somando outros itens.

A questão da ancestralidade é reafirmada no número dos avós. Marina Lino e Guilherme Gasperine são caracterizados como velhinhos brincantes e executam um duo acrobático de tirar o fôlego. Aliás, as mulheres do elenco, Marina e MiMi, são ancoradoras nas tomadas de decisões do roteiro e muitas vezes posicionam-se mais corajosas do que os rapazes. Postura anti-hegemônica ao machismo arraigado nos rincões comunitários.

A cultura da roça, de pedir a bênção, de dançar a catira e de tocar a viola são outras das veredas perceptíveis nesse projeto que não abre mão da contemporaneidade e tampouco das raízes. Aliás, o Cuesta do título é uma referência à paisagem típica que envolve parte da cidade vocacionada para o ecoturismo. O relevo da região de Botucatu mostra uma subida como que em degraus, por vezes criando paredões e culminando numa área ‘’plana’’.

Uma passagem da peça é representativa de como a companhia assume-se encantadoramente bucólica em suas práticas e pensares. Pés descalços, barbas longas e bastas, como a maioria masculina da Beira Serra, Fernando Vasques, o Januário, toma o centro do palco e deita versos com a integridade de quem também se vê representado pelo lugar literal de fala, no linguajar afim: “Por isso que eu vô prantá um pé de mim mesmo nesse lugar. Por que se eu sô raiz dessa terra aqui, sou raiz do relevo do mundo e também do relevo do tempo. (…) O circo pode não chega, mai eu sei que, pelo menos, eu sô parte do maior espetáculo da terra… que é tá aqui. Vivo. No melhor lugar do mundo. Acima dos meus pés e abaixo dos meus cabelo”.

E vem desse palco o sopro criativo da cidade dos “bons ares”, ou “Ibytu-katu”, em tupi-guarani. Um vento com personalidade artística.

Por Valmir Santos

Foto:Paulo Amaral

Valmir Santos-Jornalista e crítico de teatro, editor do site Teatrojornal – Leituras de Cena (www.teatrojornal.com.br)