Tradições entrelaçadas

Responsável pelo encerramento do 34º Festivale, o espetáculo “Zabobrim, o Rei Vagabundo”, do Grupo Barracão (Campinas/SP), propõe uma inusitada junção entre duas tradições vinculadas ao uso da máscara: a Commedia dell’Arte italiana e a arte da palhaçaria. O resultado é um espetáculo que sobrepõe comicidade popular a um sofisticado apuro técnico, resultado da longeva pesquisa do grupo acerca desses dois universos cênicos.

Na trama de “Zabobrim”, é possível observar uma série de elementos que fazem parte da própria história da comédia no ocidente. Além das famosas cenas de quiproquós, disfarces, diálogos de duplo sentido, humor físico e a presença de personagens-tipo, a construção dramatúrgica está centrada em um eixo clássico do gênero: a inversão das relações de poder.

Acostumado a dormir na rua e a viver de restos ou doações de comida, o palhaço-mendigo Zabobrim tira a sorte grande ao encontrar na lixeira uma lâmpada mágica. Após desperdiçar dois pedidos, seu derradeiro desejo é atendido: tornar-se rei. Apesar de todas as regalias do novo posto, o palhaço precisa lidar igualmente com as crises da monarquia, insatisfações populares e o risco da degola.

No texto assinado por Esio Magalhães junto a Tiche Vianna, responsável pela direção da montagem, o palhaço-título (vivido por Esio) divide a cena com tipos característicos da Commedia dell’Arte, como o Doutor, o Arlequim, o Capitão e o Pantaleão. Se, por um lado, a presença das máscaras tradicionais produz uma cena quase didática, no que diz respeito à exemplaridade das situações construídas, por outro, a existência de figuras que não fazem parte do repertório tradicional ajuda a ampliar as possibilidades daquilo que conceitualmente se entende como “máscara” nas artes cênicas.

É o caso da personagem que faz o gênio da lâmpada, representada pela drag queen Kara Ariza, atriz convidada do espetáculo. Sua participação como a lendária figura do gênio ajuda a construir um contraponto contemporâneo aos tipos populares da obra. Além do contraste físico de tamanho entre a drag e o baixinho Zabobrim favorecer um efeito cômico, trata-se de um mascaramento usualmente não reconhecido como tal, o que cria um bem-vindo estranhamento à estética e ao jogo cênico da montagem.

Outra opção que colabora para arejar as tradições da Commedia dell’Arte e do palhaço para além de seus lugares mais conhecidos é o uso de referências do cotidiano e da cultura pop. Desde o funk inicial dançado pela personagem da criada até o jogo de inverter os ritos habituais da monarquia – como a brincadeira de saudar o rei com um cumprimento absolutamente coloquial (o famoso “é nóis”) –, trata-se de alusões que aproximam o público da cena, ao jogar com seu horizonte de referências.

Os momentos mais engraçados da trama ficam de fato a cargo do palhaço Zabobrim. Como foi dito em debate ocorrido após o espetáculo, a referência do Circo Teatro foi fundamental para viabilizar a fusão entre a Commedia dell’Arte e o universo dos narizes vermelhos, já que nessa tradição brasileira os palhaços aparecem como centro em torno do qual os acontecimentos orbitam. Dentro dessa estrutura, o clown de Esio Magalhães tem espaço de sobra para explorar o repertório cômico burilado em diversos espetáculos anteriores, também protagonizados pelo personagem-título.

Próximo à figura do Augusto, clown ingênuo e atrapalhado da tradição circense, Zabobrim extrai comicidade sobretudo quando explora a contramáscara de um rei vagabundo. O destaque fica por conta das cenas em que o palhaço passa a ditar regras, ser bajulado por diversos súditos e precisa se desdobrar para fazer jus à teatralidade do poder necessária à sustentação da coroa que veste.

Parece ter também relação com o Circo Teatro as cenas que jogam com um humor francamente debochado e popular, responsável por aquele humor típico da chamada “baixa comédia” – na qual prevalece o riso franco e audível da plateia. É o caso da cena em que Zabobrim se disfarça de espanhola para fugir da espada de Napaleão (em alusão ao famoso imperador da França republicana, protagonizado pelo tipo do Capitão). Ainda que a presença de uma dançarina de flamenco na trama não aporte muito à dramaturgia por apelar a um estereótipo um tanto esvaziado de sentido no contexto da peça – a presença vale pela hilária parodia posterior de Zabobrim.

É também na relação direta com o público – simbolizado na trama como o “povo” do reinado – e no jogo metalinguístico com o pianista Edu Guimarães, responsável por executar a trilha sonora ao vivo, que o palhaço vivido por Esio Magalhães opera quebras de graça e riso na obra. Com isso, o espetáculo alcança um ritmo ascendente, que parece encontrar um tempo cada vez mais fértil ao propósito cômico na medida em que a trama avança.

Ainda que em alguns momentos a montagem deixe transparecer certo tecnicismo por demais acentuado e um diálogo previsível com a tradição – sobretudo no que se refere aos tipos da Commedia dell’Arte – “Zabobrim” agrada justamente quando subverte esses desafios iniciais ao entrelaçar técnica, zombaria e inventividade. Assim, faz jus ao principal propósito das tradições com as quais dialoga: produzir graça e alegrar uma “população” teatral ávida por rir.   

Por Julia Guimarães

Foto:Paulo Amaral

Julia Guimarães-Crítica do 34º Festivale. Pesquisadora, professora, crítica teatral e jornalista. É pós-doutora em Artes Cênicas na UFMG e concluiu seu doutorado na USP, com pesquisa em teatro contemporâneo.  

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