A loucura como projeto em “Hysteria”

Quase 20 anos depois da sua estreia, “Hysteria”, do Grupo XIX de Teatro, de São Paulo, se apresentou pela primeira vez em São José dos Campos no último dia do 34º Festivale. O espetáculo foi realizado em um galpão abandonado nas imediações da Fundação Cultural Cassiano Ricardo, cuja arquitetura serviu como o próprio cenário da peça.

Cinco mulheres estão na Sala de Asseios de um hospício feminino do século XIX – uma espécie de cárcere. Quatro delas estão internadas e sob os “cuidados” da quinta personagem, uma enfermeira com ares de governanta que recebe o público feminino com certa agressividade. As narrativas que cada personagem traz foram inspiradas em registros históricos pesquisados pelo grupo. Suas falas trazem citações de documentos e de obras literárias, mas a dramaturgia também conta com a interação com as espectadoras no momento presente.

Antes de entrar no galpão, a plateia é separada por gênero. Os homens entram primeiro e são posicionados de frente para a cena. Em seguida entram as mulheres, que são acomodadas em bancos dispostos de maneira circular dentro do espaço cênico propriamente dito. As espectadoras são convidadas, portanto, a participar do espetáculo de maneira mais literal. A separação da plateia é inspirada nas experiências que o Dr. Jean-Martin Charcot (1825-1893) realizava com mulheres consideradas histéricas naquela época no hospital de La Salpêtrière, para os quais convidava uma plateia masculina. Com isso, a peça nos faz ver mais uma vez que diante de temas que dizem respeito aos direitos básicos das mulheres, aos homens é reservada a prerrogativa de observar e tomar decisões, com a devida segurança e distanciamento. Os corpos dos homens brancos, enquanto categoria histórica, estão seguros.

Quanto a nós, mulheres, não há como escapar. Estamos diretamente implicadas na violência institucional da qual a peça trata, uma violência de gênero que também é violência de estado. No contexto ao qual a peça se refere, a medicina, que não deixa de ser instrumento político, chancelada por sua aura de nobreza, condenava mulheres à internação compulsória não apenas por sintomas que pudessem sinalizar uma enfermidade, mas também – talvez principalmente – pelos sintomas de desobediência social. Muitas vezes, para “salvar a honra” do pai ou do marido, uma mulher era retirada da vida em sociedade e confinada em um hospício. Escutando e observando as personagens da peça, é possível perceber que elas foram submetidas, por suas famílias e pelo mesmo sistema que deveria cuidar da sua saúde, a situações que provocaram sua suposta loucura. Trazer à tona o tema da histeria com distanciamento histórico é um modo de expor o quanto a associação da condição feminina à loucura é uma construção perversamente implantada no imaginário coletivo.

Vale observar que o recorte explorado pelo grupo está restrito à condição de mulheres brancas e de determinada classe social. As personagens de “Hysteria” estão em 1897, como elas mesmas nos contam. Alguns anos depois, seria inaugurado em Barbacena, Minas Gerias, o Hospital Colônia, cenário do que ficou conhecido como o holocausto brasileiro: um hospício onde cerca de 60.000 pessoas foram torturadas e assassinadas, especialmente no período da ditadura militar. Sob a alegação da loucura, internava-se prostitutas, mulheres infiéis, vítimas de estupros, homossexuais, mendigos, presos políticos, crianças abandonadas pelos pais… A maioria, negra. Um espetáculo recente do teatro brasileiro, o excelente Colônia, solo de Renato Livera, trata do assunto com seriedade.

“Hysteria” também menciona interdições à vida das mulheres, que em determinadas situações sociais já avançaram consideravelmente. No entanto, as liberdades conquistadas ainda estão restritas aos privilégios de classe e – embora a luta das mulheres negras em todas as pautas feministas seja pioneira e implacável – muitos dos direitos conquistados também encontram desigualdades na prática, de acordo com a cor da pele.

O livre exercício do desejo sexual continua sendo não apenas tabu, mas gatilho de feminicídio e desculpa para a manutenção ostensiva da cultura do estupro, uma estrutura de pensamento que responsabiliza a vítima e protege o agressor. O histórico impeditivo à escrita criativa e crítica da mulher hoje se reflete francamente nas desigualdades do mercado de trabalho – que não é diferente no âmbito das artes.

O espetáculo do Grupo XIX chama atenção para o quanto tudo isso é recente e assustador. A peça tem um tom de leveza, consegue estabelecer situações bem-humoradas e pode até ter um ou outro momento solar, mas o mesmo material de pesquisa utilizado para essa montagem poderia ter levado o grupo a fazer uma peça de terror. Digo isso também por ter assistido, na mesma semana, ao trabalho mais recente de Janaina Leite, uma das atrizes criadoras da peça. Em “Stabat Mater”, um espetáculo brilhante e único, um projeto artístico e pessoal coerente e denso, ela expõe o modo como a sociedade dispõe do corpo da mulher, fazendo uma aproximação com a pornografia e os filmes de terror. Em “Hysteria”, a histerectomia imposta à personagem de Juliana Sanches, por exemplo, é de uma crueldade inacreditável.

A relevância desse trabalho do Grupo XIX só aumenta na medida em que as instâncias públicas no Brasil de 2019, as declarações mesmas do atual Presidente da República, têm não só autorizado mas incentivado a misoginia generalizada. Isso é muito perigoso, em dois aspectos. Por um lado, nossos corpos estão diretamente implicados nessa incitação à violência. Por outro, nossa saúde mental vai sendo gradualmente minada – e esse problema é pouco visível, pouco debatido.

Assistindo às atrizes durante o espetáculo, não pude deixar de pensar que eu, vivendo no século XIX, poderia estar ali entre elas. Também não pude deixar de reparar nas paredes do galpão. Algumas delas apresentavam linhas tortuosas do teto até o chão, deixadas pela ação devoradora de cupins. Foi inevitável fazer uma associação com “Aquarius”, filme de Kleber Mendonça Filho em que a personagem de Sonia Braga luta contra a destruição do prédio onde mora. Nas paredes e nos móveis do seu apartamento, está impressa a força da memória de uma parente, uma mulher emancipada de meados do século XX. Uma das estratégias dos seus antagonistas é tentar tornar o seu cotidiano insuportável e minar a sua sensação de segurança. Quem viu o filme vai lembrar da perversidade carimbada nas marcas de cupim nas cenas finais. Por conta dessa interferência, proporcionada pela cenografia da ocasião, fiquei com “Hysteria” e “Aquarius” misturados na cabeça: uma peça com mulheres sendo oprimidas no século XIX e um filme com mulheres exercendo sua liberdade nos séculos XX e XXI.

O ataque à nossa sanidade mental é um processo histórico continuado – e para continuar lutando por nossos direitos, vamos precisar dessa saúde (pela qual as mulheres na peça fizeram questão de rezar). As liberdades não chegam por evolução natural, são conquistas que demandaram muito trabalho daquelas que vieram antes de nós, como as personagens de “Hysteria”, a quem devemos a responsabilidade da participação. Ao público masculino comovido, cabe pensar se vocês vão mesmo continuar só olhando.

Por Daniele Avila Small

Foto: Paulo Amaral

Daniele Avila Small é crítica e curadora de teatro. Doutora em Artes Cênicas pela UNIRIO, é idealizadora e editora da revistaQuestão de Crítica