Uma denúncia bem-humorada sobre um tema candente

“Birita Procura-se”, solo de palhaçaria produzido pelo grupo A Casa das Lagartixas, é uma obra que tem como mote algumas limitações físicas de sua protagonista, a atriz-palhaça Ariadne Antico. Diagnosticada desde pequena com um tipo de paralisia cerebral chamada coreoatetóide global, responsável pela execução de alguns movimentos involuntários e por alguma dificuldade na articulação das palavras, verifica-se aí um elemento de caráter biográfico agindo diretamente na conformação do espetáculo.

Embora não se trate de um solo que procure distender as fronteiras entre o real e o ficcional, tão em voga nos últimos anos, visando mais o compartilhamento de uma experiência do que a composição de uma narrativa, “Birita Procura-se” apropria-se da linguagem “clownesca” de uma maneira um tanto inusitada, autoirônica se poderia dizer. Se uma das características que marcam a figura do palhaço é o seu lado desastrado, Birita assume essa condição não como um desafio à performatividade da atriz que a interpreta, mas como um fato real, fruto de uma deficiência motora que não é fingida.

Isso se dá de duas maneiras, uma mais diretamente ligada à cena e outra à dramaturgia do espetáculo. No aspecto cênico, não é difícil deduzir, tais limitações apontadas se encontram, de um jeito ou de outro, em todas as passagens mais propriamente cômicas, quando Birita se dispõe, por exemplo, a equilibrar um pequeno vaso em cima de uma bandeja ou a narrar uma partida de futebol. Em termos dramatúrgicos, é por intermédio delas que se reveste o eixo reflexivo da obra, que propõe a seguinte questão, conforme se encontra no programa: as limitações de Birita seriam reais ou impostas pela sociedade?

Para dar uma reposta a essa indagação, o artifício utilizado é fazer com que Birita, para pagar as suas contas, necessite a todo instante procurar um emprego novo, o que explica o título da obra. Nessa espécie de périplo em busca de uma colocação profissional, muitos são os obstáculos enfrentados, alguns por suas dificuldades congênitas, outros, de fato, por preconceitos sociais arraigados, que dizem respeito à maneira como a nossa sociedade encara as pessoas consideradas deficientes. O principal deles, sob o prisma apresentado em “Birita Procura-se”, seria a mania de subestimá-los, tratando-os como se fossem incapazes de realizar quaisquer tarefas que lhe são designadas.

Além desses preconceitos mais arraigados, que por suas raízes culturais podem emergir a qualquer momento e em qualquer lugar, a obra também tem como alvo certas políticas públicas direcionadas aos deficientes, como a política de cotas. Todavia, é bom esclarecer, não se trata de uma crítica às cotas em si, responsáveis pela contratação de muita gente que, de outro modo, teria poucas chances de se colocar no mercado de trabalho, cada vez mais insano e competitivo. A condenação incide, acertadamente, na maneira como uma certa “cultura empresarial” se apropria dessa política, utilizando-a para ensejar um tipo de proselitismo moral hipócrita: enquanto trabalhadores deficientes são agraciados com o título de “funcionários do mês”, a pretexto de se divulgar o quão benemerente é a empresa que os contratou, esses mesmos trabalhadores são tratados em seu dia a dia da forma mais paternalista possível, deixando visível a posição subalterna em que atuam naquele ambiente profissional. 

 Do ponto de vista formal, “Birita Procura-se” parece se aproximar mais de um tipo de número peculiar ao universo da palhaçaria conhecido pelo nome de reprise, que se caracteriza por ser uma pantomima predominantemente muda. A não ser em alguns raros momentos, como na cena em que Birita narra um jogo de futebol, as vozes ouvidas no espetáculo não emanam da palhaça, mas, sim, de matrizes gravadas, ou seja, emitidas em “off”. Tais vozes (na verdade duas), assumem variadas funções ao longo da apresentação, às vezes narrando as situações que vão se sucedendo, outras comentando e até interatuando com a palhaça.

O espetáculo se afasta, contudo, de sua matriz circense ao se apresentar como uma obra um tanto fechada do ponto de vista cênico, abrindo pouco espaço para o improviso e o inusitado em favor de marcações bem determinadas.  A exceção ficaria por conta, claro, da cena em que um espectador ou espectadora é chamado ao palco para ajudar Birita a colocar um par de luvas cirúrgicas. Isso não implica necessariamente uma restrição, mas uma observação que ajuda a esclarecer o caráter mais contemplativo que prevalece na encenação de “Birita Procura-se”.

Com direção de Ésio Magalhães, grande palhaço e ator cômico, “Birita Procura-se”, além de divertir, levanta questões da maior relevância em relação à inclusão de pessoas com deficiência física, algumas totalmente ignoradas pelos cidadãos considerados “normais”. Enfim, uma denúncia muito bem-humorada sobre um tema candente.

Por Rodrigo Morais Leite

Rodrigo Moraes Leite- É doutor e pós-doutorando em Artes Cênicas pela Unesp, com pesquisas desenvolvidas nas áreas de crítica teatral e história do teatro brasileiro.

Foto:Paulo Amaral