Um testemunho coletivo acerca da violência e da justiça

A corrente impetuosa é chamada de violenta

Mas o leito de rio que a contém

Ninguém chama de violento.

A epígrafe acima, um trecho do poema “Sobre a Violência”, de Bertolt Brecht, define bem a análise social empreendida pelo espetáculo “(In)Justiça”, da Companhia de Teatro Heliópolis. Tratando-se de uma passagem que acabou se tornando aforismática, de tão mencionada, ela costuma vir à baila quando se quer demonstrar o quanto a miséria, associada à repressão do Estado, são fatores motivadores para o aumento geral dos índices de violência urbana.

Sem cair no determinismo estreito, algo por excelência antibrechtiano, o grupo paulistano procura apresentar em seu trabalho mais recente uma problematização aprofundada envolvendo certo tipo de criminalidade, mediante o exemplo colhido na trajetória de Maicon Guilherme dos Santos, garoto pobre conhecido pelo apelido de Cerol.

Após se envolver em uma briga em sua comunidade, Cerol é perseguido por um vizinho, com ambos portando armas de fogo. Visando se defender de seu contendor, ao tentar alvejá-lo, Cerol erra o tiro e a bala atinge a cabeça de uma mulher, que morre. Esta, acrescente-se, pertencente à classe média. A partir desse episódio, sem dúvida o eixo ao redor do qual a obra analisada gira, todo um arsenal cênico é mobilizado, seja para ilustrar os antecedentes históricos do crime, seja para comentar as suas consequências individuais e coletivas.

No tocante aos antecedentes, percebe-se na dramaturgia visual de “(In)Justiça” uma trajetória descensional que caminha do macro para o micro. Começando pela presentificação ritualística de Xangô, orixá que rege a justiça de acordo com o panteão Iorubá, ela passa pela diáspora africana, pela marginalização do negro no regime escravocrata até chegar na história pessoal de Cerol, representado por um ator mirim (Gustavo Rocha).

Em relação às consequências advindas do crime, também é possível perceber o mesmo percurso dedutivo que vai do geral ao particular, partindo do Poder Judiciário, a instância responsável por julgar Cerol, para adentrar no debate sobre o sistema prisional que deveria recolhê-lo – com o objetivo, em tese, de recuperá-lo e devolvê-lo à sociedade. Aqui se revela uma segunda camada de significação do espetáculo, centrada na ideia que se tem de justiça, procurando desconstruir maieuticamente certa noção segundo a qual ela encerraria um conceito universal, por conseguinte válido para qualquer tempo e espaço independente de suas condições sociais e históricas.

Ao adentrar por essa seara, mais do que relativizar algumas convicções enraizadas no senso comum a respeito do combate à violência, a principal delas resumida no terrível pensamento de que “bandido bom é bandido morto”, “(In)Justiça” concentra fogo cerrado numa das maiores mazelas da sociedade brasileira: o seu Poder Judiciário. Valendo-se de uma série de expedientes, o principal deles contido no conceito de “gestus” elaborado por Brecht, os componentes dessa instituição “ilibada” comparecem em cena quase sempre em tom farsesco, de modo a revelar em seus gestos e atitudes corporais aquilo que de fato são em termos sociais, ou seja, a nossa aristocracia por excelência. A cena do cafezinho, nesse sentido, seria emblemática.

 Procurando apresentar todas essas questões em uma perspectiva histórico-social, algo próprio do teatro épico, “(In)Justiça” se mostra, formalmente, como um espetáculo bastante hibridizado, no qual passagens narradas sucedem outras mais dramatizadas ou performadas. Em algumas cenas, ao menos duas dessas linguagens convivem “lado a lado”, o que demonstra a despreocupação do grupo paulistano em alcançar uma determinada unidade estética, algo que também aproxima “(In)Justiça” dos parâmetros épicos, normalmente avessos a essa ambição.

Em termos morais, “(In)Justiça” é uma obra teatral que lida com uma problemática bastante delicada. Ao demonstrar os inúmeros condicionamentos que precedem o crime de Cerol, e outros inúmeros condicionamentos que precedem sua condenação em júri popular, ela tangencia a todo instante o risco de ignorar ou mesmo menosprezar a dor e a revolta advindas do lado da vítima, isto é, da mulher assassinada. Na ótica deste espectador, isso não ocorre porque, antes de tudo, seu interesse não está em deslegitimar esse sentimento, mas em proporcionar uma visão mais, dir-se-ia, dialetizada em torno da questão, na qual ambos os partidos possam ser contemplados. Em especial, sem dúvida, aquele cuja voz não costuma ser ouvida, isto é, o partido dos oprimidos e olvidados da história. O mesmo ao qual, afinal de contas, pertencem os(as) integrantes do grupo, quase todos e todas moradores da comunidade de Heliópolis, uma das regiões mais pobres da capital paulista.

Nesse sentido, o conteúdo desenvolvido em “(In)Justiça”, apresentado como um verdadeiro testemunho coletivo, se revela em plena sintonia com seu modo de produção e, por conseguinte, com sua formatação de matriz épica, ainda que hibridizada. Concebido a partir de um processo colaborativo coordenado pelo dramaturgo Evill Rebouças e pelo diretor Miguel Rocha, é possível perceber no trabalho do grupo uma fusão de vozes individuais (polifonia) que, uma vez estetizadas, dão origem ao que se poderia designar como um pensamento coletivo criador.

Esse pensamento, que constitui a base sobre a qual “(In)Justiça” está assentado, não visa a desqualificação, conforme se afirmou, de nenhum sentimento individual dos que porventura já sofreram com aquele tipo específico de violência urbana que transborda da favela para o asfalto. A crítica, acima de tudo, procura desconstruir certa visão, totalmente centrada no corolário liberal-burguês, segundo a qual o indivíduo é interpretado como um ser atomizado e que, portanto, seria plenamente responsável pela afirmação de sua personalidade.

É contra essa forma de visão de mundo reducionista, inclinada a compreender todo e qualquer ato delituoso como uma simples questão de escolha pessoal, que a obra comentada se volta. Semelhante visão, além de tornar o debate demasiadamente maniqueísta, perfeito para condenações sumárias, serve para justificar um tipo de política carcerária que, sob as vestes humanitárias das teorias de ressocialização, mostra-se apenas como um dejeto de seres humanos. Seres humanos de origem pobre, acrescente-se. A pena, com efeito, em vez de servir à readaptação do condenado, torna-se uma forma “disfarçada” de vingança, cujo efeito costuma gerar uma reação em cadeia das mais deletérias. 

É nesse ponto, em sua rejeição a tais princípios tidos como “universais” pelas classes dominantes, que “(In)Justiça” mais se aproxima do teatro épico, que como o seu próprio nome revela, tem no relativismo histórico-social uma de suas premissas. Uma obra, enfim, que só poderia ser levada a cabo por artistas muito conscientes de sua classe e do lugar ocupado por eles no mundo, cujo coro de vozes altissonantes, ao ganhar o tratamento estético condizente com as demandas que lhe deram origem, gerou um espetáculo bastante representativo do que se costuma designar como teatro de grupo, um dos tópicos deste 34º Festivale.

Por Rodrigo Morais Leite

Foto:Paulo Amaral

Rodrigo Morais Leite- É doutor e pós-doutorando em Artes Cênicas pela Unesp, com pesquisas desenvolvidas nas áreas de crítica teatral e história do teatro brasileiro.