Um musical anticonvencional

Nos últimos anos, tem sido comum no teatro brasileiro o aparecimento de musicais dedicados a homenagear alguma personalidade de nossa história cultural, na maioria das vezes algum(a) cantor(a)-compositor(a) já falecido(a) mas que, a despeito disso, tenha deixado um legado significativo de belas canções. Os exemplos são vários, e citá-los aqui seria algo exaustivo, tamanha a profusão deles.

Ensejando megaproduções ou espetáculos de menor porte, pouco importa, a fórmula dramatúrgica é quase sempre a mesma: intercalar momentos mais narrativos, com destaque para a trajetória pessoal e profissional do(a) artista, com os números musicais, de maneira que estes pareçam irromper “naturalmente”, comentando ou, melhor ainda, complementando a narrativa. Como o público de tais espetáculos tende a ser composto de admiradores(as) do(a) artista homenageado(a), se poderia afirmar, fazendo uso de uma associação futebolística, que eles já iniciam a partida com o placar favorável de dez a zero. Isso acontece porque, é claro, eles costumam atender a uma plateia fortemente predisposta a gostar daquilo que vê.

Se, por um lado, seria possível acusar tais musicais de obras acomodatícias, com base nos argumentos formulados acima, por outro é necessário acrescentar que essa condição não se aplica indistintamente a todos os espetáculos enquadrados nessa seara. Nessa categoria de exceção se encontra, sem dúvida, “Oi Lá, Inezita”, trabalho produzido pela Cia Cênica, de São José do Rio Preto, apresentado neste 34º Festivale no Cine Teatro Santana.

O tema do musical, como o título revela, refere-se à cantora, compositora, folclorista e apresentadora Inezita Barroso (1925-2015), sem dúvida uma figura de proa no âmbito da cultura nacional. Por esse aspecto, ele se inscreve perfeitamente nessa categoria a que se poderia nomear de “espetáculo-exaltação”. Mas as coincidências param por aí, visto que o trabalho do grupo rio-pretense procura atingir uma dimensão lírica não tão comum assim ao gênero. Sua dramaturgia, ao contrário da maioria de seus congêneres, não é biográfica, ao menos não no sentido tradicional, no qual quem assume o primeiro plano é a vida civil da personalidade retratada (onde nasceu, onde estudou, os percalços superados para chegar ao sucesso, seus altos e baixos etc etc).

Em “Oi Lá, Inezita”, mesmo sem renegar por completo o chamado biografismo, ele está longe de ser a tônica do espetáculo. Esta se encontra muito mais no trabalho de Inezita enquanto pesquisadora e divulgadora musical, com destaque para a sua dedicação ao cancioneiro caipira, simbolizado na viola de dez cordas empunhada por ela no decorrer de toda a sua carreira profissional. Com efeito, a figura em relevo surge na obra analisada não como uma personagem “concreta”, isto é, dotada de algumas características que deveriam, bem ou mal, determinar suas ações, no sentido dramático do termo. Sua personificação se inclina mais para o campo abstrato da alegoria, como se Inezita representasse, por intermédio das canções que gravou, toda uma vertente da cultura brasileira de origem popular, incluindo aí as danças, folguedos e tradições religiosas que lhe são mais caras. Semelhante traço alegórico na composição de Inezita é reforçado pelo fato de ela surgir em cena representada não por uma, mas, sim, por três atrizes, quase sempre atuando em coro, um recurso que tende à despersonalização.

Ainda se atendo à dramaturgia, cabe ressaltar que a sua tessitura se apoia muito mais nas histórias contidas nas letras das canções do que na história pessoal da cantora que as interpretou. Essa informação é importante para se compreender a posição ocupada pelo biografismo em “Oi Lá, Inezita” como, também, o tipo de expediente utilizado para sobrepujá-lo: fazer com que a artista homenageada dialogasse não com supostos personagens reais que fizeram parte de sua vida, mas com a sua própria obra e as figuras “folclóricas” que dela emanam.

Conforme já se adiantou, parte do elenco do espetáculo é composto de três atrizes, todas representando Inezita. Além delas, outros três atores se desdobram em cena, às vezes compondo um contracoro, outras representando individualmente personagens diversas ou participando da execução musical. De qualquer forma, o elenco é todo formado de artistas polivalentes, capazes de atuar, cantar, tocar seus instrumentos e até mesmo dançar com uma desenvoltura apreciável.

Destacando-se por sua dramaturgia inusual e pelo elenco afiado, “Oi Lá, Inezita” possui ainda uma outra qualidade que merece destaque: sua visualidade, amparada nos figurinos, no cenário e, mais notadamente, na direção, que surpreende a todo instante pela criatividade e plasticidade das marcações. Isso pode ser conferido tanto em relação à partitura corporal executada pelo elenco, sempre muito expressiva, quanto ao desenho da encenação como um todo, igualmente expressivo em suas linhas e volumes.

Outros comentários ainda poderiam ser feitos a respeito do trabalho da Cia Cênica, detendo-se sobre certos aspectos simbólicos presentes nos figurinos e nos adereços postos em cena. Todavia, para não extrapolar os limites razoáveis de uma crítica, melhor interrompê-la por aqui, na certeza de que esta apreciação, de acordo com o ponto de vista explicitado, soube reconhecer o devido valor de “Oi Lá, Inezita”, uma pequena joia dentro do universo teatral em que se insere.

Por Rodrigo Leite

Rodrigo Morais Leite, É doutor e pós-doutorando em Artes Cênicas pela Unesp, com pesquisas desenvolvidas nas áreas de crítica teatral e história do teatro brasileiro.