Um espetáculo-ensaio acerca da opressão

Bem no início de “Vigiar e Punir: Um Soldado Beijava a Boca de Foucault na Escada da Escola”, espetáculo da Cia. Caravan Maschera de Teatro, um dos atores do elenco, caracterizado como um bufão, dirige ao público as seguintes palavras: “Parece estranho o que vamos pedir, mas pelos próximos minutos nós queremos que vocês desliguem o cabeção”. Semelhante admoestação insinua que a obra ali apresentada não foi feita para ser “entendida”, ou seja, não pretende estabelecer com os espectadores uma relação de tipo racional, na qual a projeção de sentido toma o lugar da experiência sensorial tendo em vista obter, por parte daqueles, uma interpretação sintetizadora.

Embora “Vigiar e Punir” não contenha nenhuma fábula, o elemento primordial de um teatro mais centrado na ideia de logos, o espetáculo do grupo atibaiense não é, nem de longe, desprovido de significação, apresentando uma semântica singular inspirada no pensamento de Michel Foucault, com destaque para o seu livro mais conhecido (“Vigiar e Punir: Nascimento da Prisão”, de 1975). Nele, muito sumariamente, o filósofo francês procura esboçar, de acordo com o seu conhecido método arqueológico-genealógico, a diferença entre os modos de coerção social exercidos antes e após o advento da Revolução Francesa (1789-1799).

Enquanto no período do Antigo Regime prevaleciam os métodos públicos e espetaculares de punição, com ruas e praças servindo de palco às mais abomináveis práticas de supliciamento de condenados, na era pós-revolucionária uma nova técnica coercitiva teria sido, aos poucos, implantada, baseada nos princípios racionalistas e jusnaturalistas do Iluminismo. A partir de então, surge aquilo designado por Foucault de “sociedade disciplinar”, caracterizada pela promoção de um tipo indolente de repressão, muito mais ideológica do que física, na medida em que procura atingir os corpos indiretamente, tornando-os dóceis e submissos perante uma certa ordem estabelecida.

O tripé configurador dessa sociedade, de acordo com a ótica esboçada no livro, seria formado pelo hospital, a escola e o presídio, cada um cumprindo uma determinada função coibitiva em um ambiente no qual o corpo humano se tornara inviolável – donde se explica o imperativo de subjugá-lo sem a observância de nenhum padecimento físico. No caso do espetáculo em análise, a crítica nele contida, sem deixar de deter-se sobre as três instituições acima mencionadas, espraia-se por searas como, por exemplo, o sexo, a religião e a loucura, deixando entrever a utilização, em sua dramaturgia, de outras obras da lavra foucaultiana, dentre as quais “História da Loucura na Idade Clássica” (1961) e “História da Sexualidade” (1976-2017).

Tratando-se de um espetáculo-ensaio, pois fundamentado em textos teórico-dissertativos, sua elocução não se dá, conforme comentado, pela via da fábula, mas pela coerência temática que interliga as cenas, todas relacionadas, de algum modo, a esses métodos “invisíveis” de opressão aparecidos com o advento da contemporaneidade. Versando a respeito de indivíduos que, apesar de proclamarem sua autonomia, se mostram verdadeiros autômatos, isto é, seres que não agem por conta própria, uma vez que são coagidos, é difícil imaginar outra forma de se materializar cenicamente semelhante tese senão pela via do teatro de bonecos.

É exatamente isso o que “Vigiar e Punir” propõe, valendo-se de uma forma híbrida que combina harmonicamente a linguagem do bufão, a manipulação de objetos e, claro, o teatro de bonecos. Este comparece por intermédio de uma bonecaria eclética, na qual prevalecem certos bonecos acoplados à cintura dos manipuladores, de modo com que os últimos, quase sempre, não se escondam durante a manipulação.

  À medida que as cenas se sucedem, intercalando momentos totalmente pantomímicos a outros que não abdicam da fala (gravada ou ao vivo), o sentido do espetáculo, por justaposição, vai se tornando mais claro, fazendo com que, ao final, mesmo o espectador leigo em relação à obra de Foucault consiga apreendê-lo minimamente. O advérbio aqui utilizado se explica porque, caso esse hipotético assistente já tenha tomado contato com o ensaísmo do filósofo, a fruição de “Vigiar e Punir” tende a se tornar mais tranquila, não há dúvida. O próprio espetáculo, em um momento de sagaz autoironia, que só poderia vir à tona pela boca de um dos bufões, brinca com esse suposto hermetismo que ali se evidencia, arrancando boas risadas do público.

Embora seja muito difícil comentar “Vigiar e Punir” quadro a quadro, o que excederia os limites razoáveis de uma crítica, uma passagem pode servir de chave para uma interpretação plausível. Seria aquela na qual um menino onanista, representado por um boneco, tem o pênis castrado por um médico, este paramentado com uma expressiva capa cirúrgica morbidamente decorada. Para além da castração física propriamente dita, essa cena parece sugerir o eixo simbólico ao redor do qual o espetáculo gira, calcado nas inúmeras formas de castração espiritual a que a sociedade contemporânea procura submeter seus membros – valendo-se, para isso, daquelas instituições mencionadas mais atrás. Nesse sentido, a castração sexual, por mais importância que se lhe possa atribuir, é apenas uma parte de um todo que a extrapola.

Um bom exemplo disso se encontra na cena em que, pela manipulação de um boneco, um crucifixo e um suporte para soro, sonorizada por uma estridente pregação evangélica, procura-se alegorizar cenicamente o verdadeiro aprisionamento da alma que a fé religiosa costuma acarretar. Tal crítica, acredita-se, embora incida sobre a religião hegemônica (o cristianismo), em sua vertente mais tradicional (católica) e mais atual (neopentecostal), poderia ser estendida a qualquer fé demasiadamente ortodoxa, capaz de impedir uma visão de mundo abrangente e desculpabilizada.

Concebido, dirigido e executado por Giorgia Goldoni e Leonardo Garcia, que se desdobram na atuação dos bufões e na manipulação dos bonecos e objetos, “Vigiar e Punir” configura a temática acima exposta dando vazão a uma plasticidade ressaltada, consubstanciada nos figurinos, no desenho dos bonecos (inspirado em certas obras de Bosch e Goya) e na própria movimentação dos atuadores. Para que esta ganhe contornos mais expressivos, são de enorme importância os dois praticáveis mobilizados em cena, que ao longo do espetáculo acumulam variadas funções (coxia, área de atuação, debuxador do espaço cênico etc).

Nessa busca de uma cena compósita, além dos elementos até aqui levantados, não se pode esquecer do uso da luz e da sonoplastia, que ajudam na composição da atmosfera lúgubre desejada e, de quebra, ditam o ritmo da encenação, fazendo com que ela apresente uma coerência interna ajustada à temática discursiva desenvolvida. Por tudo isso, “Vigiar e Punir” apresenta-se como uma obra teatral significativa, realizada com esmero e muito estudo, que só contribui para o enriquecimento do debate estético neste 34º Festivale.

Por Rodrigo Morais Leite

Rodrigo Morais Leite:É doutor e pós-doutorando em Artes Cênicas pela Unesp, com pesquisas desenvolvidas nas áreas de crítica teatral e história do teatro brasileiro.

Foto:Paulo Amaral