Um cabaré despido da alma do cabaré

Reunir fragmentos dramatúrgicos de Luís Carlos Martins Pena foi o caminho que o grupo Teatro do Rinoceronte bolou para celebrar mais a obra do que a biografia do carioca que viveu apenas 33 anos no período imperial. Ele escreveu comédias e dramas na esteira do centenário da chamada Independência do Brasil (1822). Precisamente 16 anos depois dessa efeméride, a partir de “Juiz de Paz na Roça” (1938), peça na qual o meritíssimo do título é corrupto. Pois bem. Como o legado do autor soaria às vésperas do bicentenário, em 22 de abril de 2022, quando a República Federativa do Brasil terá completado 132 anos? A considerar os trechos de peças abarcados em “Mas Que Pena!”, a atualidade é flagrante. A questão que se impõe, porém, diz respeito a como esse aperitivo é servido.

O espetáculo é concebido como um cabaré que intercala narração, representação e música ao vivo. O gênero seria mesmo um veículo propício às figuras grotescas e por vezes capciosas de Pena. No entanto, a mixagem resulta formalmente acanhada em termos de números musicais (como modinhas) e de diálogos e situações compilados. Um paradoxo diante dos procedimentos afins à cintilante, dinâmica, transgressiva e sedutora tradição de divertir e dar o que pensar a respeito de cada época.

A prática universal do cabaré remonta às tabernas europeias esfumaçadas, entre os séculos XIX e XX, atravessando duas guerras mundiais. Em contraponto à pulsão de morte, reivindicava o prazer. Comer, beber, cantar, dançar, flertar, tudo era possível desde que aliado ao senso de criticidade. E não foi à toa que o dadaísmo, movimento contestador de estéticas dominantes, surgiu dentro de uma dessas casas de agito: o mítico Cabaret Voltaire suíço, em 1916, e logo replicado em outras regiões. A repercussão ao longo da história também influenciou a dramaturgia do alemão Bertolt Brecht.

Na experiência das artes da cena no Brasil, um primo distante do gênero seria o teatro de revista, que usava alguns desses expedientes satíricos para passar o ano a limpo e ganhou alma própria nos palcos do Rio de Janeiro, então capital federal, principalmente entre o final do século XIX e o início do XX.

Se a obra de Pena é um prato cheio de brasilidade, o cabaré inclina-se ao humor voluptuoso, vívido. Pois é essa inerência que deixa a desejar no espetáculo apresentado no 34º Festivale. No teatro Dailor Varela, da Casa de Cultura Flávio Craveiro, parte do elenco de sete pessoas aparentava falta de tesão, para ir direto ao ponto.

Ponderando-se o desfalque de equipamentos de luz e de som ideais para o espaço cultural de bairro receber com mais dignidade esse tipo de produção, a maneira como os artistas são dispostos em cena pode ter contribuído para tal leitura. Em determinados momentos, atores e atrizes recuam alguns passos postando-se de braços cruzados ou com as mãos na cintura, de modo a observar demais colegas interpretando no centro do tablado, minutos adentro, postura que dava sinal de desconexão de presença.

A diretora Imara Reis opta por uma cena em que o elenco permanece o tempo todo exposto. A coxia é literalmente carregada para dentro do palco. Dois mancebos repletos de figurinos, adereços e instrumentos servem de “escudos” para as trocas, ao sabor dos esquetes. Quem sabe a intenção seja a de estabelecer um ambiente de improviso, mas parece mal-ajambrado. Haveria de brotar um ritmo mais ágil para fazer esse jogo de fato brilhar por entre as cadeiras do cenário.

Também contribui para isso a movimentação ainda condicionada às marcações. A montagem recém-estreou e as atuações ainda transparecem um reconhecimento de território, como se o elenco estivesse tateando esse gênero.

Atriz permanecer de pernas abertas, sentada, não é suficiente para denotar ou engajar o espírito de cabaré. A sensualidade resplandeceria do rosto, do olhar, da corporalidade, do estado global de atenção. Tudo somado, daí sim a ação paralela da atuante suspensa no tecido circense impactaria. Essa performance aérea fica solta. Figurinos em tons rosa para homens e azul para mulheres é uma escolha colada ao noticiário e cujo efeito aos poucos satura. A execução musical, coração do gênero, mostra os artistas vibrando na mesma toada mediana ao cantar e tocar acordeão, pandeiro e violão.

Fundado há 15 anos, o grupo de São José dos Campos demonstra coerência história ao lidar com esse projeto. Um de seus trabalhos mais conhecidos, “Cabaret del Rinoceronte”, produzido nos primeiros anos da década, assumia a linguagem no título e a prospectava em cena. O desafio agora estaria em como criar e recriar a partir da seleção de textos coordenada por Calixto de Inhamuns e sob dramaturgia de Imara e do ator Carlos Rosa. Coligir cenas daquele que é tido como pai da comédia de costumes é uma ação oportuna na voga dos retrocessos civilizatórios no Brasil. A capacidade de síntese e o olhar crítico periscópico sobre a sociedade ajudam a entender porque o escritor segue admirado e montado.

Os pelo menos sete blocos com temas como guerra dos sexos, casamentos forçados, artimanha e vingança tropical expõem intrigas envolvendo exploração, preconceito, falsa crença e ascensão social, entre outras. Esse recurso brechtiano de blocar os assuntos pode organizar a recepção ao público ou torná-la mecânica, como acontece. Mas os criadores encontram brechas alvissareiras para correlacionar uma das passagens a “O Mercador de Veneza”, comédia de Shakespeare, fazer blague da propaganda de uma empresa de investimentos e ironizar a fixação do filho do presidente da República em ser embaixador nos Estados Unidos.

A maioria dos escritos de Martins Pena é curta e os enredos são influenciados pela cultura das ruas, dos rearranjos domésticos e da dimensão popular tradutora da perenidade do caráter brasileiro. Em vez da aristocracia, ele valoriza aspectos do povo, como a dança e as falas características do homem e da mulher do campo.

O roteiro amealhado dá uma ideia do quanto o conteúdo cutucava o regime monárquico de então. No que o ambicionado cabaré de “Mais Que Pena!” dá a letra, citando Sílvio Romero, historiador da literatura brasileira que dedicou um livro ao comediógrafo, em 1901: “Se perdessem todas as leis, escritos, memória da história brasileira dos primeiros cinquenta anos deste século, que está a findar, e nos ficassem somente as comédias de Pena era possível reconstruir por elas a fisionomia moral de toda essa época”. O espetáculo, por seu turno, não dá a ver a fisionomia do gênero em sua estrutura orgânica, atenuando a força dos subtextos nos diálogos.

Por Valmir Santos

Valmir Santos : Jornalista e crítico de teatro, editor do site Teatrojornal – Leituras de Cena (www.teatrojornal.com.br)