Projeto voluntário fortalece artesanato e cultura local entre indígenas do Mato Grosso do Sul

Um projeto de confecção de joias sustentáveis com mulheres indígenas do Mato Grosso do Sul não para de crescer. Idealizada pela servidora pública Janir Gonçalves Leite, a iniciativa foi uma das vencedoras do Prêmio Viva Voluntário 2018, promovido pelo governo federal em parceria com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). O reconhecimento injetou 50 mil reais nas atividades, que puderam ser ampliadas em 2019.

Projeto leva capacitação em artesanato local e empoderamento feminino para indígenas do Mato Grosso do Sul. Foto: Acervo pessoal/Janir Gonçalves Leite

Projeto leva capacitação em artesanato local e empoderamento feminino para indígenas do Mato Grosso do Sul. Foto: Acervo pessoal/Janir Gonçalves Leite

Um projeto de confecção de joias sustentáveis com mulheres indígenas do Mato Grosso do Sul não para de crescer. Idealizada pela servidora pública Janir Gonçalves Leite, a iniciativa foi uma das vencedoras do Prêmio Viva Voluntário 2018, promovido pelo governo federal em parceria com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). O reconhecimento injetou 50 mil reais nas atividades, que puderam ser ampliadas em 2019.

Janir deu início ao projeto em 2008, de forma voluntária, na Aldeia Ipegue, onde propôs o ensino de artesanato para apoiar a comunidade a gerar renda. Em 2017, o programa chegou à Aldeia Urbana Tico Lipú, em Aquidauana (MS). Nessa nova localidade, a iniciativa conseguiu reverter o quadro de pobreza dos moradores e contribuiu para o reconhecimento do território pela Fundação Nacional do Índio (FUNAI). Em Tico Lipú, a coordenadora das ações também promoveu a narração de histórias na língua Terena, a fim de estimular a prática do idioma entre os jovens e resgatar a cultura local.

O trabalho em Aquidauana rendeu o prêmio Viva Voluntário e, com os recursos financeiros, Janir decidiu expandir a proposta para uma terceira comunidade, a Aldeia Água Branca, também no Mato Grosso do Sul.

Aldeia Água Branca

O contato com a Aldeia Água Branca teve a mediação do cacique Mario Julisson, um jovem líder que buscava melhorias para a população. Por ser de família indígena, Janir explica que os caciques da região a conhecem, o que facilita a construção de uma rede de confiança com as comunidades, um requisito indispensável para a implementação dos projetos.

A servidora pública iniciou as atividades de artesanato com uma oficina para a confecção de roupas típicas com pintura Terena. As vestimentas seriam utilizadas na festa do Dia do Índio, comemorado em 19 de abril. O saldo foi positivo — 60 conjuntos foram costurados por cerca de 40 mulheres. Janir organizou também uma atividade de confecção de “biojoias”, como fez na Aldeia Tico Lipú.

Para as oficinas, as mulheres indígenas utilizavam o espaço de uma antiga escola, cedido pelo cacique. Mas os moradores logo se articularam para promover um mutirão e construir um centro comunitário em formato de oca. Oficinas de fabricação de cestas e de peças em cerâmica já estão programadas para acontecer nas novas instalações.

Mulheres indígenas

As atividades são ministradas por artesãs da comunidade que conhecem técnicas tradicionais e as ensinam para as demais habitantes da aldeia. No caso da cerâmica, apenas duas idosas da região ainda guardavam esses saberes. A dupla vai registrar em vídeo todo o processo de fabricação que é explicado durante as aulas, desde a retirada da cerâmica até a produção final.

Para Janir, esse modelo contribui com a preservação da cultura, além de valorizar as idosas e as mulheres professoras.

O método também foi utilizado na Aldeia Tico Lipú, quando foi organizado um curso de confecção de bolsas com 15 participantes, oferecido por duas moradoras. Os acessórios fabricados já foram comercializados, possibilitando a continuidade do trabalho.

Na avaliação da voluntária, as atividades voltadas para as mulheres são essenciais. A demanda, de acordo com a servidora, vem da própria comunidade. “As mulheres me falam que não há ações sociais voltadas para incentivá-las, todas são focadas nos homens”, explica a líder do projeto.

As indígenas já fazem diversos tipos de artesanato, mas de maneira fragmentada no território. Muitas vezes, esse grupo não se sente valorizado pelo seu ofício. O intuito das oficinas é não apenas ampliar o trabalho e a geração de renda dessas mulheres, mas também incentivar o reconhecimento das suas ocupações e estimular o empoderamento feminino.

Futuro do projeto

Além do artesanato, Janir tem outras ideias para o desenvolvimento econômico e social das aldeias, como a produção de sabão ecológico, feito a partir de óleo de cozinha reaproveitado e vinagre, também com as mulheres da comunidade. Para implementar essa nova frente de atuação, a servidora busca um espaço apropriado e apoio do poder público.

Na Aldeia Água Branca, antes uma grande produtora de farinha e de rapadura, será realizado um mapeamento da fabricação desses produtos. O objetivo é identificar os moradores que ainda detêm a técnica para voltar a comercializá-los.

O projeto de Janir se mostrou replicável e sustentável. A funcionária do governo considera as especificidades de cada aldeia e fomenta o protagonismo dos moradores em todas as etapas. Por isso, sua chegada aos territórios é bem aceita pelos indígenas e outras comunidades já a procuram para que seus territórios também recebam a iniciativa.

Segundo a voluntária, as principais dificuldades para a expansão são a escassez de recursos financeiros e a falta de tempo.

O Prêmio Viva Voluntário é resultado de uma parceria da Casa Civil da Presidência da República com o PNUD. O apoio em dinheiro para os vencedores vem da Fundação Banco do Brasil. Janir Gonçalves Leite recebeu a premiação na categoria Líder Voluntário.