Precisamos implementar modelos de desenvolvimento que preservem a Amazônia, diz especialista

A atual taxa de declínio da natureza, sem precedentes na história da humanidade, foi confirmada pelo novo relatório da Plataforma Intergovernamental de Ciência e Política sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES), o documento mais abrangente sobre o assunto, divulgado recentemente.

Em entrevista ao Banco Mundial, o ambientalista e biólogo norte-americano Thomas Lovejoy fala sobre seu trabalho de mais de 50 anos na conservação da Amazônia, região que abriga 40% da floresta tropical remanescente do mundo, 25% da biodiversidade terrestre e mais espécies de peixes do que qualquer outro sistema fluvial do planeta.

“Um dos maiores problemas é o desmatamento motivado por atividades agropecuárias. O desenvolvimento da infraestrutura também é uma grande ameaça, especialmente se alguns projetos continuarem do jeito que estão. Precisamos pensar em alternativas e trabalhar com os governos estaduais para criar modelos de desenvolvimento sustentável que preservem a floresta”, disse. Leia a entrevista completa.

Rio Amazonas no Peru. FOto: Anton Ivanov/Shutterstock.com (CC)

 Rio Amazonas no Peru. FOto: Anton Ivanov/Shutterstock.com (CC)

A atual taxa de declínio da natureza, sem precedentes na história da humanidade, foi confirmada pelo novo relatório da Plataforma Intergovernamental de Ciência e Política sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES), o documento mais abrangente sobre o assunto, divulgado recentemente. A altíssima taxa de extinção de espécies de plantas e animais provavelmente terá graves impactos sobre pessoas no mundo inteiro.

Na ocasião do lançamento do relatório, o presidente da IPBES, Robert Watson, afirmou: “ainda dá tempo de mudar, mas, para isso, precisamos começar agora e agir em todos os níveis, do local ao global”.

É para isso que o Programa Paisagens Sustentáveis da Amazônia (ASL, Amazon Sustainable Landscapes), liderado pelo Banco Mundial e financiado pelo Fundo Mundial pelo Meio Ambiente (GEF, na sigla em inglês) vem trabalhando na Amazônia, região que abriga 40% da floresta tropical remanescente do mundo, 25% da biodiversidade terrestre e mais espécies de peixes do que qualquer outro sistema fluvial do planeta.

Com sua abordagem regional integrada, o programa visa aprimorar a proteção e a gestão de 82 milhões de hectares de florestas no Brasil, na Colômbia e no Peru.

Apelidado de “Padrinho da Biodiversidade”, o ambientalista e biólogo norte-americano Thomas Lovejoy trabalha na Amazônia há mais de 50 anos. Ele falou ao Banco Mundial sobre as pressões que a região enfrenta e os motivos para protegê-la, além de propor algumas soluções. Ele também explicou por que a Amazônia precisa ser gerida como um sistema integrado e com decisões ponderadas e graduais.

Banco Mundial: A Amazônia é uma das poucas áreas florestais remanescentes e abriga talvez um quarto das espécies terrestres do planeta. Por que essa biodiversidade é tão importante?

Lovejoy: A floresta e os rios da Amazônia abrigam uma enorme variedade de espécies: algumas endêmicas (ou seja, que só ocorrem ali), outras ameaçadas de extinção e muitas ainda desconhecidas. Essa biodiversidade é importante para o mundo inteiro. Todas as espécies deste sistema incrivelmente biodiverso representam soluções para um conjunto de desafios biológicos; podem ter um potencial transformador e gerar benefícios para toda a humanidade.

Por exemplo, a descoberta de inibidores da enzima conversora de angiotensina (ACE), inspirada por estudos realizados com o veneno da Bothrops asper (espécie de serpente tropical encontrada na Amazônia), ajuda centenas de milhões de pessoas em todo o planeta a controlar a hipertensão.

Há uma gama de espécies muito ricas e promissoras aguardando ser descobertas. Um exemplo são as formigas cortadeiras. Essas formigas colhem e usam folhas como manta para os fungos que cultivam, evitando deliberadamente as folhas que contêm fungicidas naturais. O estudo das espécies que essas formigas evitam pode ajudar a identificar novos fungicidas naturais.

Os conhecimentos das populações indígenas são muito importantes para a atingirmos esse potencial. A biodiversidade também tem importância em nível local, pois constitui o capital natural que sustenta diversas atividades humanas; mais especificamente, os meios de subsistência das populações pobres ao redor do planeta. Por exemplo, os bagres e o pirarucu são itens importantes na culinária local.

A biodiversidade da Amazônia também é fundamental para os sistemas globais, pois influencia o ciclo global do carbono (e, portanto, a mudança climática) e os sistemas hidrológicos hemisféricos, servindo como uma importante âncora para o clima e para as chuvas na América do Sul.

Banco Mundial: A maioria das pessoas sabe que a Amazônia armazena grandes quantidades de carbono e, portanto, está ciente de sua influência na mudança climática, mas você poderia falar mais sobre os ciclos hidrológicos?

Lovejoy: Poucas pessoas sabem que a Amazônia produz cerca de metade de suas próprias chuvas, além de levá-las até o sul da Argentina, contribuindo para a produção agrícola. Se esse ciclo hidrológico se romper, poderá gerar um ponto de inflexão que resultará na conversão de partes da floresta tropical em savanas secas ou até mesmo em caatingas, além de afetar negativamente as chuvas e a agricultura em toda a América do Sul.

Eu e o cientista climático Carlos Nobre acreditamos que esse ponto de inflexão está muito próximo e que as secas de 2005, 2010 e 2016 já são os primeiros sinais dessa mudança. Mas a boa notícia é que o reconhecimento dessa possibilidade e o reflorestamento podem ajudar a restabelecer uma margem de segurança.

Banco Mundial: Na sua opinião, quais são as principais ameaças à Amazônia e quais as soluções para resolvê-las?

Lovejoy: Infelizmente, a pressão sobre a Amazônia está cada vez maior. Os lugares de maior risco são o sul e o sudeste (regiões do Pará, Mato Grosso e Rondônia), mas também há pressões surgindo em novos locais.

Um dos maiores problemas é o desmatamento motivado por atividades agropecuárias. O desenvolvimento da infraestrutura também é uma grande ameaça, especialmente se alguns projetos continuarem do jeito que estão. Precisamos pensar em alternativas e trabalhar com os governos estaduais para criar modelos de desenvolvimento sustentável que preservem a floresta.

Parte da resposta deve ser o desenvolvimento de bioeconomias sustentáveis. Se os agricultores forem remunerados pelas atividades que protegem a floresta, imagino que sua resposta será positiva. Outros exemplos são a pesca e a aquicultura. São atividades de grande importância para a bioeconomia e para a alimentação de uma população mundial cada vez maior.

Tudo depende, no entanto, de como a aquicultura é implementada. O estado do Acre desenvolveu uma indústria de aquicultura bastante produtiva nos últimos dez anos. Essa atividade de base biológica faz todo o sentido e devemos buscar oportunidades semelhantes, recorrendo também aos conhecimentos indígenas para identificar novas oportunidades econômicas, sempre pautadas pela bioética.

Cidades sustentáveis também são essenciais, mas exigem um planejamento cuidadoso e criativo. As atividades econômicas em Manaus, por exemplo, usam em grande parte materiais não provenientes da floresta. Precisamos iniciar um diálogo sobre o que as cidades devem fazer para trazer benefícios reais para as suas populações, com muito menos impacto sobre as florestas.

A infraestrutura de baixo impacto é outra solução. Um excelente exemplo é a elevação das rodovias na região da Mata Atlântica. A linha de transmissão projetada entre Manaus e Roraima não teria um impacto tão forte se o projeto atual (em linha reta) fosse alterado e seguisse a rodovia já existente no local, evitando novos desmatamentos e transtornos para os povos indígenas.

Da mesma forma, precisamos pensar em como produzir energia não fóssil a partir de barragens hidroelétricas de forma a preservar os fluxos de sedimentos e os trajetos de espécies migratórias como os grandes bagres, cujo ciclo de vida se estende desde o estuário até as cabeceiras.

Banco Mundial: O relatório da IPBES ressalta que a perda de habitats (e, portanto, da biodiversidade) é mais lenta nos territórios administrados por povos indígenas. Qual é o papel dessas comunidades (e de seus conhecimentos) na proteção e manutenção da biodiversidade?

Lovejoy: Os povos indígenas têm um papel importantíssimo. Eles possuem vastos conhecimentos sobre os animais e plantas locais e tiram proveito da floresta, de várias formas, há milhares de anos.

A maioria dos povos indígenas tem um estilo de vida bastante sustentável. São, basicamente, grandes guardiães da floresta; atualmente, cuidam de cerca de um quarto da Amazônia.

Sabemos que, em alguns casos, as práticas dos povos indígenas mudam, mas, no momento, os povos indígenas estão entre os melhores gestores da biodiversidade nas florestas. São povos extremamente inteligentes, capazes de embarcar na era digital rapidamente, quase de um dia para o outro; por exemplo, usando GPS no mapeamento de suas terras. As culturas dos povos indígenas são absolutamente fascinantes.

Ao ajudar a evitar o desmatamento, eles têm um papel fundamental na proteção da biodiversidade e na luta global contra a mudança climática. A administração florestal é um grande favor que os povos indígenas fazem para toda a humanidade. Eles são grandes aliados na proteção da Amazônia e merecem muito respeito e gratidão dos países amazônicos e do mundo inteiro pelo trabalho que fazem.

Banco Mundial: O Banco Mundial, o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e o World Wide Fund for Nature (WWF) apoiam o Programa ASL, financiado pelo GEF. O ASL tem como objetivo vincular áreas protegidas a paisagens produtivas. Essa é uma boa estratégia?

Lovejoy: Não tenho a menor dúvida (que sim). O modelo daqui para frente precisa incorporar as aspirações humanas aos sistemas naturais. Conectar as áreas protegidas trará mais segurança para a biodiversidade, pois à medida que sentimos cada vez mais os efeitos da mudança climática, os animais e as plantas passam a buscar condições mais propícias.

Ou seja, as áreas isoladas apresentam um grande problema, e conectá-las é o que devemos fazer daqui para a frente. Essa conectividade também ajudará a preservar as condições hidrológicas; a vegetação ao longo dos cursos d’água reduz a erosão do solo e viabiliza ainda mais conexões. Vale ressaltar, no entanto, que as conexões florestais em terra firme também são cruciais.

Ao administrar um sistema como a Amazônia, é fundamental considerar decisões graduais. Cada pequena mudança na estrutura mais ampla pode gerar efeitos cumulativos; caso os efeitos sejam negativos, as consequências podem ser vastas.

Visto que a Amazônia é um sistema que se estende até o topo dos Andes, as florestas mais abaixo sentem os efeitos do que ocorre em altitudes mais elevadas. As atividades humanas são uma peça importante do quebra-cabeça na administração desse sistema.

Sei que as pessoas estão preocupadas com a recente mudança da política brasileira em relação à abertura da Amazônia. Acredito, no entanto, que quando o governo brasileiro se der conta da importância da Amazônia como sistema, bem como sua contribuição para a economia e a agricultura do país, ficará convencido de que a sustentabilidade e o funcionamento da Amazônia são do interesse de todos.

ONU