Por outras fabulações

“Confabulações”, peça da Cia Bufa de Teatro, de Salvador, trouxe ao 34º Festivale uma discussão importante a respeito da mitologia grega, das origens do teatro na historiografia europeia e, sobretudo, da representação da mulher na sociedade em que vivemos, tanto do ponto de vista das narrativas quanto da imagem do corpo feminino. No debate que aconteceu depois da peça – atividade que acompanha toda a programação do festival – a diretora Joyce Aglae situou o trabalho no contexto da sua pesquisa sobre a deusa grega Baubo, propondo que a origem do teatro se deu de fato com ela, e não com Dionísio.

            Em diálogo com uma das propostas da curadoria do festival, a cultura popular, a peça adota a linguagem da bufonaria, forma ancestral e popular do teatro. A caracterização das quatro atrizes é inspirada na deusa Baubo. São figuras grotescas, que trazem na sua forma a imagem da mulher e a imagem de um animal. A referência à mulher aparece principalmente na representação exacerbada das vulvas, indispensável à simbologia do mito em questão, que celebra a condição feminina com alegria, festividade e irreverência. Essa caracterização também funciona como uma crítica aos padrões inalcançáveis de beleza, imposição feita aos corpos femininos que opera como uma forma constante de violência e opressão.

            Os melhores momentos do espetáculo, a meu ver, estão na parte musical. As bufonas fazem versões jocosas de canções conhecidas para criticar hábitos machistas da sociedade. É aí que o humor chega mais afiado e eficaz. Em outros momentos, nos quais a peça faz um grande inventário dos problemas que as mulheres enfrentam, a crítica social feita pela peça corre o risco de ficar redundante, de soar como mera reclamação ou desabafo, ou de apenas ratificar um diagnóstico já conhecido. Além disso, o convite à libertação das mulheres daquilo que as aprisiona é feito com as conjugações verbais no imperativo, o que pode ser um contrassenso.

            A vontade de abarcar uma grande variedade de diferentes assuntos faz a peça escorregar em listas e enumerações de questões com as quais não se estabelece um embate. Em determinado ponto, a dramaturgia  apresenta uma série de figuras femininas da história e da cultura, que se colocam na primeira pessoa do singular para contar como a sociedade as percebe. Aqui me pareceria mais coerente se essas narrativas redutoras do papel da mulher fossem ditas na terceira pessoa, pois elas repetem o ponto de vista do patriarcado que narra essas histórias. Nesse ponto, o espetáculo acaba correndo o risco de internalizar e reforçar aquilo que deseja negar, de contar mais uma vez uma história que já sabemos. O deboche tem o seu poder de desconstrução, sem dúvida. Mas sem uma outra construção, passada a duração do riso, os estereótipos se reconstituem em um piscar de olhos.  

            O título da peça sugere uma fabulação em conjunto: “Confabulações” é um gesto de um grupo de mulheres que se reúne para colocar em cena uma figura mitológica de grande importância para as subjetividades femininas, uma divindade deixada de lado, que deveria ter um lugar de destaque nas nossas mentes e nas narrativas que nos formam. Mas o espetáculo, em si, apenas coloca as imagens de Baubo em evidência na sua visualidade, sem oferecer uma fabulação que dê a ela um lugar no nosso imaginário. Nesse sentido, o debate depois da peça foi uma ação de mediação fundamental para a minha percepção da obra. Ali aconteceu, de fato, uma confabulação que o espetáculo apenas sugere.

Por Daniele Avila Small

Daniele Avila Small é crítica e curadora de teatro. Doutora em Artes Cênicas pela UNIRIO, é idealizadora e editora da revistaQuestão de Crítica.

Foto:Paulo Amaral