Leitura Flutuante com Jeferson Fernandes :As Selfies e nós mesmos

O que o excesso de selfies podem dizer sobre você? Dependendo da quantidade de selfies, da repetição do tipo de selfie, sorrindo, triste, com raiva, de baixo para cima, de cima para baixo, gestos e etc; pode significar várias coisas. Mas uma coisa sobre o excesso é inquestionável: além de ser uma falta, demonstra um comportamento narcisista.

Do mito grego de Narciso, contado por Ovídio, vem o termo “narcisismo”, um jovem bonito e indiferente ao amor que ao se ver refletido na água apaixonou-se pela própria imagem refletida. Curiosamente, narcisismo deriva da palavra grega nárke, que significa torpor e entorpecimento, sendo a raiz da palavra narcótico.

Para Freud, o narcisismo é uma característica comum nos seres humanos. Porém, ao longo do tempo, afirma Freud, o narcisismo universal dos homens sofreu três severos golpes:

Primeiro com Copérnico no século XVI, o golpe cosmológico, a Terra não é o centro do universo, logo, o homem não era o senhor do Universo. Segundo, com Charles Darwin, no século XIX, o golpe biológico, onde ele concluiu que o homem não é diferente ou superior aos animais. E terceiro, pelo próprio Freud, no século XX, o golpe psicológico, que para ficar em uma só frase: “o ego não é senhor da sua própria casa”.

As selfies, em excesso, tem a função de preencher um vazio, de afirmar ou auto afirmar o sujeito. Parece que se não fizer uma selfie, não há um significado, não há eu, e eu só sou eu apenas quando me vejo e me veem nas fotos. Porém, se essa foto for feita por outro, haverá uma ausência de significado, assim sendo, a foto deve ser feita por mim mesmo, myself. Do neologismo, ou seja, de onde se deriva autorretrato, selfportrait, a selfie, só tem significado, se for feita pelo próprio fulano.

Curiosamente as selfies dos narcísicos, podem irritar outros narcísicos (declarados ou não) e esses vão dizer que os que fazem muitas selfies “se acham”, e em resposta, os que se acham vão dizer que são invejados…

Um Voltaire, azedo e despeitado vai dizer no século XVIII que “Os infinitamente pequenos têm um orgulho infinitamente grande.”

 

Na literatura de Machado de Assis, encontramos Bentinho, personagem de Dom Casmurro, narcisista por excelência, que em uma passagem diz “Se só me faltassem os outros, vá; um homem consola-se mais ou menos das pessoas que perde; mais falto eu mesmo, e esta lacuna é tudo”.

Em O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde, poderia-se qualificar como uma espécie de “narciso reverso”, já que o vaidoso e narcisista Dorian evita olhar seu retrato que acumula todos os seus males.

Embora a primeira selfie conhecida pudesse ser um dos autorretratos de Van Gogh, pintados entre 1886 e 1889, foi o químico e fotógrafo americano Robert Cornelius, o responsável pela primeira selfie do mundo em 1839.

Um estudo publicado no The Open Psycology Journal demonstrou que postar excessivamente selfies, pode estar associado a um aumento de narcismo.

Se apresentar de maneira grandiosa, poder realizar fantasias de onipotência, de mostrar uma imagem de si mesmo, que muitas vezes, nem o próprio indivíduo acredita, por isso o excesso, o importante mesmo é que vejam, me vejam, porque hoje em dia o importante é ser visto, é ser destaque em algo…

 

Por fim, citando Caetano Veloso: “É que Narciso acha feio o que não é espelho.”

 

Jeferson Fernandes

Jeferson Fernandes- Jornalista, radialista e psicanalista em formação