Leitura Flutuante com Jeferson Fernandes : A FELICIDADE ESTÁ NOS CARDÁPIOS

O que todas as pessoas buscam? A felicidade!

A felicidade (como se sabe) é algo que dura pouco. Acredito que seja programada para durar pouco; ela se contrapõe com a infelicidade para que possamos identificá-la quando surge, para que possamos buscá-la quando a infelicidade parece durar muito tempo.

Para Tales de Mileto do século 7 a.C., o primeiro filósofo a falar no tema, é feliz “quem tem corpo são e forte, boa sorte e alma bem formada”.

E como encontrar a felicidade? Antes da consolidação do mundo pós moderno, no começo dos anos 80, encontrar a felicidade na aquisição de coisas, no crescimento intelectual, em relacionamentos dependia de muito esforço, perseverança e tempo.

Mas hoje em dia tudo mudou!

Temos a “felicidade” na ponta dos dedos, via celular ou computador, através dos sites especializados em felicidade.

Se antes eu precisava estudar muito com os livros, enciclopédias e afins, hoje, basta ter um celular com internet para poder acessar o Google. Se quero saber sobre o que se trata Guerra e Paz de Tolstoi, por exemplo, ao invés de ler 2.000 páginas, eu procuro na net por um resumo do livro e em cinco ou dez minutos eu sei basicamente do que se trata.

Posso querer me relacionar com alguém, mas ir a lugares, procurar, me expor e etc, pode me causar stress, então, eu me cadastro em um site de relacionamentos e voilà: o site me dá muitas opções!

Quero somente sexo! Sites dos mais variados em gosto, preço e gênero estão a minha disposição.

Se desejo assistir a um filme, mas a fila e o preço do cinema me causam muita infelicidade, então, espero sair em DVD e compro ou assisto online ou ainda posso baixar o filme em um desses sites que pirateiam cópias, que pessoas infelizes, que se sentem felizes filmando e compartilhando o trabalho de tantas outras pessoas, e assim prejudicando o negócio de profissionais do entretenimento disponibilizam gratuitamente.

Meu problema é a religião? Posso acender uma vela virtual em sites religiosos, ao invés de ir à igreja, onde tem muita gente, barulho, cânticos repetitivos e gente fofoqueira que não me deixa ouvir o que Deus está tentando dizer.

Se tenho fome, poderia ir a um restaurante, pizzaria, padaria, boteco, mas para que gastar combustível e tempo, se posso acessar um site onde infinitos cardápios e preços estão ali para a minha felicidade?

Porém, toda essa facilidade também pode causar algumas dúvidas: se posso escolher um resumo de Guerra e Paz, quem me garante que o resumo que li está certo ou se é o melhor? Se achei a minha alma gemea no site, será que de fato é ela mesmo 100% gêmea ou será que não tem outra mais gêmea? Se escolho a companhia sexual para noite, será que não tinha outra melhor, uma que atendesse por completo meu gosto, que fosse mais amiga, mais selvagem, carinhosa ou esperta? No momento que assisto um filme na net penso, será que não estou perdendo um filme melhor? Afinal, são tantas as opções que a minha felicidade em escolher, acaba no momento em que penso que poderia ter escolhido algo diferente, talvez melhor… E então, aí está ela de novo: A infelicidade!

O amor de Platão, o amor platônico, refere-se, grosso modo, ao amor impossível, porém, se por ventura, este é correspondido, ele é imediatamente substituído por outro. Amamos aquilo que não possuímos.

Vários nomes da filosofia se dedicaram ao tema felicidade, Agostinho, Epicuro, Schopenhauer, Kant, Russel, Aristóteles, entre outros, os filósofos John Locke e Leibniz, entre os séculos 17 e 18, identificaram a felicidade com o prazer, um “prazer duradouro”.

Para o sociólogo Zigmunt Bauman a felicidade duradoura é um problema, já que para ele “Vivemos em tempos líquidos. Nada foi feito para durar”. Para Bauman na sociedade contemporânea, emergem o individualismo, a fluidez e a efemeridade das relações.

Por fim, neste mundo de facilidades e pequenas felicidades instantâneas, parece que a medida em que o tempo passa, nos econtramos cada vez mais com um número maior de escolhas proporcionalmente a um número menor de acertos nestas escolhas. Estamos cada vez mais conectados com os outros no mundo virtual, sem estarmos juntos com ninguém no mundo real, com felicidades cada vez mais passageiras e cada dia mais solitários.

Por Jeferson Fernandes

Jeferson Fernandes- Jornalista, radialista e psicanalista em formação