Há mais mistérios entre a margem e o convívio…

A sessão vespertina do espetáculo “The Bichos”, com o grupo Teatro D’Aldeia, acolheu alunos e usuários da escola de educação especial Bem-Te-Vi, sejam homens ou mulheres, adultos, adolescentes e crianças, além de estudantes das séries iniciais do Colégio Franciscano Nossa Senhora Aparecida. O convívio provisório de quem veio uniformizado de verde e branco (caso da entidade filantrópica que atende pessoas com deficiência intelectual ou com múltiplas deficiências) e de quem veio de bordô e branco (da escola privada) foi determinante para a recepção do espetáculo no Cine Teatro Benedito Alves.

Cerca de 80% dos lugares estavam ocupados. A turma do Bem-Te-Vi sentou nas duas últimas fileiras, em torno de vinte pessoas. Portanto, a esmagadora maioria da sala era composta de aprendizes do Nossa Senhora. Logo nas primeiras cenas, chamavam a atenção os sons guturais percebidos como aflitivos e emitidos por uma pessoa situada no fundo da plateia. Aquele registro vocal grave seria intermitente ao longo da apresentação, bem como o agito corporal da pessoa amparada pela professora ou cuidadora ao lado. Crianças giravam a cabeça para trás com olhinhos que demonstravam curiosidade, susto, preocupação. Até que, aos poucos, conciliavam as cenas que se passavam no palco com a sonoridade por vezes tonitruante em suas costas.

Posicionado na fileira “I”, entre um espaço e outro, fui levado a aguçar essa experiência de escuta, no mínimo, perturbadora. A dramaturgia colateral derivada da sessão da tarde, naqueles minutos únicos de consonância de presenças e ressonância de alteridades, despertou reflexões acerca da condição humana e das extensões da racionalidade, da loucura e da animalidade a serem operadas como linguagem.

Enquanto o quarteto de intérpretes evoluía serelepe em sua livre apropriação beatlemaníaca do conto de fadas “Os Músicos de Bremen” (1812), dos alemães Irmãos Grimm, um bocado impregnado da fábula musical “Os Saltimbancos” (1977), de Chico Buarque, que também bebeu daquela fonte, parte da plateia teve que se haver com aquele nível de intervenção involuntária.

Antes do início da sessão, a escritora Mirian Cris, funcionária da Fundação Cultural Cassiano Ricardo, fez uma mediação sensível e inteligente acerca do rito pressuposto na relação do público com o teatro, os lugares do riso e do silêncio, por exemplo, ponderações de ouro para a meninada que se inicia como espectadoras e espectadores. Talvez ela pudesse ter informado sobre a presença da turma com deficiência e o público reagiria com menos surpresa diante dos sons guturais. Como elaborar essas palavras sem, por outro lado, discriminar? Era o que se perguntava Mirian Cris em breve conversa com este jornalista, após a sessão, ela que é autora de livros infantojuvenis como “Tuco: O Catador de Palavras” (Saluz, 2016).

A certa altura, alguém da administração do teatro chegou a cogitar para uma das acompanhantes que a pessoa que emitia sonidos saísse da sala, ao que a cuidadora teria se recusado, a nosso ver adequadamente. Mais para o final da apresentação a pessoa e a profissional se retiraram, e tudo leva a crer naturalmente, a seu tempo.

A noção de acessibilidade que veio para ficar no ambiente das artes e da cultura (demorou!), por meio da audiodescrição, da tradução em Libras e das respectivas sinalizações e adaptações da instalação cultural, por exemplo, carece ser expandida para as sutilezas outras de uma audiência formada por cidadãos com deficiência intelectual ou afins.

Como não poderia deixar de ser, “The Bichos” teve seu dialogismo de largada acrescido da música interior daquela pessoa. “Somos histórias escritas em partes”, como diz um dos quatro animais da dramaturgia de Karina Müller Rufino. A historiografia das artes cênicas é coalhada de abordagens em torno da loucura, para citar a alteração mental estigmatizada nas sociedades e caracterizada pelo afastamento mais ou menos prolongado do indivíduo de suas maneiras habituais de pensar, sentir e agir. Personalidades artísticas como o francês Antonin Artaud, o holandês Van Gogh e os brasileiros Arthur Bispo do Rosário e Stela do Patrocínio têm suas vidas e trabalhos constantemente capturados pelo universo do teatro com a beleza e a violenta que se inflige a alguém considerado “diferente”, seja lá por qual razão.

Sincronicamente, o espetáculo em pauta fala de seres que foram postos à margem por “n” motivos ou se deslocaram por si mesmos. A constatação do desalento e a possibilidade de sacudir a poeira e dar a volta por cima, com alguma ajuda do acaso a lhes estender os braços, o jumento Creonte, a gata Celi, o cão Bob e a galinha devidamente caipira Lady Gagá poderiam perfeitamente ser levados à cena por integrantes da companhia paulistana Ueinzz, aquela que desde 1997 conjuga equipe multidisciplinar de profissionais  e pacientes e ex–pacientes do hospital-dia A Casa e ainda de outras instituições psiquiátricas.

Mas foquemos na montagem do Teatro D’Aldeia. A acústica dispersiva do Cine Teatro Benedito Alves possivelmente não permitiu que as atuações sofressem interferências diretas dos sons guturais vindos do fundo. O diretor convidado Eduardo Moreira (Grupo Galpão) e o elenco conseguem exprimir um caráter coletivo de espaço público, de espírito de urbanidade. As idiossincrasias são convertidas em colaboração mútua, em estratégias gregárias que perfuram a concretude da cidade que por vezes estorva. O tablado ora esvaziado ora preenchido é uma sanfona a mercê da movimentação de Ana Cristina Freitas (Celi), Adriana Marques (Gagá), Wallace Puosso (Bob) e Vander Palma (Creonte). Mutações temporais e espaciais, por sua vez, ficam a reboque do imaginário e dos objetos e instrumentos. Já as coreografias são discretas nesse beco microcósmico das plausibilidades do viver junto.

“The Bichos” emula canções dos Beatles nas melodias, mas não necessariamente nas letras. As versões são graciosas e guardam nexo com o que é conversado ou narrado. Os intérpretes cantam, tocam e por vezes solam a contento nessa comédia musical que não dissimula alguns travos existenciais, vicissitudes humanas fundidas à animalidade. A revolução dos bichos que transcorre é menos de ordem social e mais em nível individual. Se cada um dos músicos ambulantes não tivesse se disposto a reacender motivações dentro de si, nos conformes de suas biografias, eles não teriam, afinal, se encontrado para formar uma banda e pôr o pé na estrada com mais convicção e talento, driblando os altos e baixos como qualquer sujeito.

De quebra, o grupo de São José dos Campos – que reveza no repertório peças para adultos e para todos os públicos – descontrói a imagem do “show business” a qualquer custo, hoje avassalador inclusive no território da infância, tanto para quem faz como para quem é embalado pela indústria do entretenimento dona de certos segmentos prejudiciais à saúde mental.

Por Valmir Santos, Jornalista e crítico de teatro, editor do site Teatrojornal – Leituras de Cena (www.teatrojornal.com.br)

Foto:Renato Oliveira