Em entrevista à ONU Mulheres, ginasta Daiane dos Santos fala sobre enfrentamento ao racismo

Em 1999, a ginasta Daiane dos Santos — na época, aos 16 anos — disputava os Jogos Pan-Americanos de Winnipeg, no Canadá. A competição lhe renderia suas primeiras medalhas na categoria sênior da ginástica artística: prata no salto e bronze por equipes.

Duas décadas depois, Daiane conversou com a ONU Mulheres Brasil sobre as conquistas nos esportes de alto rendimento e sobre o racismo enfrentado durante sua carreira.

“Posso dizer que sofri muito mais racismo no Brasil do que fora do país. Mais de 50% de nossa população é composta por pessoas que se autodeclaram negras, mas o preconceito ainda existe. Dizem que se trata de um preconceito velado, mas ele é bastante visível e cruel e, infelizmente, não recebe a punição que deveria.” Leia a entrevista completa.

Daiane dos Santos, da equipe brasileira de ginastica artística, durante os Jogos Pan-Americanos de Winnipeg, no Canadá, em julho de 1999. Foto: COB/Evandro Teixeira

 Daiane dos Santos, da equipe brasileira de ginastica artística, durante os Jogos Pan-Americanos de Winnipeg, no Canadá, em julho de 1999. Foto: COB/Evandro Teixeira

Em 1999, a ginasta Daiane dos Santos — na época, aos 16 anos — disputava os Jogos Pan-Americanos de Winnipeg, no Canadá. A competição lhe renderia suas primeiras medalhas na categoria sênior da ginástica artística: prata no salto e bronze por equipes.

O êxito como ginasta profissional estava apenas começando. Daiane conquistou medalhas em outros Pan-Americanos e também em campeonatos mundiais. Foi a primeira ginasta brasileira, entre homens e mulheres, a conquistar uma medalha de ouro no Campeonato Mundial de Ginástica Artística, em 2001.

A atleta participou de Jogos Olímpicos e criou dois movimentos inéditos: o duplo twist carpado e sua variação esticada, mundialmente conhecidos como “Dos Santos” e “Dos Santos 2”.

Duas décadas depois de seus primeiros Jogos Pan-Americanos, Daiane conversou com a ONU Mulheres Brasil sobre as conquistas nos esportes de alto rendimento e sobre o racismo experimentado em sua profissão.

ONU Mulheres: Como é olhar para aquela conquista de Winnipeg 20 anos depois?

Daiane dos Santos: Aquele momento foi muito importante. Não só para mim, mas para todas as meninas que sonhavam e ainda sonham em ser atletas ou em participar de um esporte que, há até pouco tempo, ainda era considerado inadequado para pessoas negras.

ONU Mulheres: De que forma o racismo esteve presente em sua carreira como atleta?

Daiane dos Santos: O racismo é uma erva daninha, ele está em todos os lugares. Masposso dizer que sofri muito mais racismo no Brasil do que fora do país. Mais de 50% de nossa população é composta por pessoas que se autodeclaram negras, mas o preconceito ainda existe. Dizem que se trata de um preconceito velado, mas ele é bastante visível e cruel e, infelizmente, não recebe a punição que deveria. 

Desde criança, sentimos os efeitos do racismo. Quando entramos na escola, em uma loja, no parquinho. No começo da minha carreira, tinha várias mães de meninas que não gostavam que eu chegasse perto das filhas, que usasse o mesmo banheiro ou vestiário. Algumas meninas não me cumprimentavam, sequer falavam comigo, e não queriam ser minhas amigas. Essas situações são ridículas, absurdas, mas elas realmente acontecem. E elas podem intimidar crianças, adolescentes e mulheres negras e impedir que elas continuem frequentando a escola, que concorram a uma vaga de emprego, que se permitam frequentar um determinado local.

ONU Mulheres: Quais foram suas estratégias para enfrentar o racismo?

Daiane dos Santos: Eu acho que o grau de informação dos meus pais, em relação a essas questões, fez muita diferença na minha vida e na vida das minhas irmãs. Eles sempre nos mostraram que, da porta de casa para fora, as coisas, às vezes, eram diferentes. Mas que, nem por isso, a gente deveria se sentir diminuída ou deixar de seguir em frente.

Aprendi que se alguém não te respeita, você precisa se respeitar, se alguém não te quer em um determinado espaço, isso não quer dizer que você não deve estar ali. Algumas pessoas podem até estar incomodadas com a sua presença, mas esse é um problema delas, você tem o direito de estar ali e você pode e tem que continuar. Vivemos em uma sociedade livre, em um país livre, onde podemos, sim, chegar aonde queremos.

Eu vejo que as famílias têm um papel muito importante na construção da identidade das crianças negras para que elas se vejam belas, fortes e com total condições de alcançarem seus objetivos. É complicado, porque muitas mães negras também não foram ensinadas a se perceber dessa forma e isso se perpetua, como uma questão que a própria sociedade impõe.

ONU Mulheres: O que mudou nesses 20 anos no que se refere às questões raciais e ao racismo na ginástica, especificamente?

Daiane dos Santos: Em muitos momentos, dentro da seleção, eu fui a única menina negra. Hoje, a seleção brasileira é quase que totalmente composta por ginastas negras. E acho que o fato de eu ter estado ali, no lugar mais alto do pódio, se tornou um exemplo para outras meninas, mostrando que o esporte é feito para todas, independentemente de raça e etnia. Eu fico muito orgulhosa disso, mas isso não se restringe a mim.

A Simone Biles é a ginasta mais completa do mundo, uma multi campeã mundial e olímpica. Ou seja, o ícone máximo atual do mundo da ginástica é uma mulher negra. E antes dela veio a Gabby Douglas, outra ginasta de elite negra. Então, a gente vem numa sequência de meninas representando a nossa raça para o mundo no que há de mais belo e de mais refinado dentro da ginástica.

Resultados como esses dão uma injeção de ânimo para as mulheres, as meninas e jovens negras, para mostrar que nós podemos fazer qualquer atividade, e que estamos dispostas a trabalhar duro para chegar ao nosso objetivo.

ONU Mulheres: O que as organizações esportivas devem fazer para eliminar as barreiras que ainda pesam mais sobre as meninas e as mulheres negras?

Daiane dos Santos: Nós, meninas e mulheres negras, ainda temos menos oportunidades não apenas no esporte, como em diversas áreas. Muitas barreiras ainda permanecem as mesmas de vinte anos atrás. É preciso dar às meninas e mulheres negras as mesmas condições e oportunidades de se desenvolverem em diferentes esportes e desconstruir de uma vez por todas tabus de que determinadas modalidades não são para pessoas negras.

Na natação, por exemplo, durante um bom tempo, se dizia que as pessoas negras tinham massa muscular muito pesada e que elas não conseguiam nadar. Isso não é verdade. O esporte deve ser para todas e todos. Assim como outros espaços, como a educação, a dança, a cultura, as empresas. Se, desde pequenas, as meninas negras receberem os investimentos necessários, poderão se expressar, descobrir seus talentos e se desenvolver.

ONU Mulheres: Que mensagem você deixaria para as meninas negras que sonham em ter uma carreira no esporte?

Daiane dos Santos: Quero que vocês entendam que só quem pode parar vocês são vocês mesmas. Ninguém pode definir o que a gente é. Só a gente mesma pode dizer o que a gente é, o que a gente não é, e o que a gente vai ser. Ninguém tem o direito de tocar em vocês sem que vocês queiram, ninguém tem o direito de fazer comentários ofensivos. Vocês são lindas, vocês são fortes e vocês podem. Eu sei que não é fácil, mas a gente consegue. A gente já venceu tantas barreiras por aí, e a gente tem quebrado cada vez mais os tabus. Então, sonhem alto, meninas, trabalhem duro, porque vale a pena. No final, o saldo é positivo e nós podemos, sim.

Empoderamento de meninas pelo esporte

As entrevistas “Perfil Atleta do Mês” são uma ação de comunicação do programa “Uma Vitória Leva à Outra” para visibilizar esportistas brasileiras e as suas histórias de vida e atuação em diferentes modalidades esportivas.

Os perfis são publicados no site da ONU Mulheres Brasil e estão disponíveis na íntegra em: onumulheres.org.br/mulheres-brasileiras

“Uma Vitória Leva à Outra” é programa conjunto da ONU Mulheres e do Comitê Olímpico Internacional, em parceria com as ONGs Women Win e Empodera. Ele visa garantir que meninas e mulheres possam participar, trabalhar com, governar e desfrutar do esporte em igualdade de condições.

O programa foi reconhecido como um legado dos Jogos Olímpicos Rio 2016 e, em sua segunda fase, de 2018 a 2021, treina organizações esportivas a trabalhar com o empoderamento de meninas através do esporte e, assim, garantir resultados de longo prazo na quebra do ciclo da violência.

Por meio da prática esportiva, as meninas adquirem uma série de habilidades transferíveis para outras áreas da vida, como o ambiente de trabalho e as relações humanas. Por exemplo: aprendem a ter disciplina, trabalhar em equipe, respeitar as regras e jogar de forma justa, manter o foco e a persistência para alcançar metas bem estabelecidas etc.

Em outras palavras, seus ganhos “em campo” possibilitam ganhos “fora de campo”. Em 2030, marco para o cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) — incluindo o ODS 5, que visa à igualdade de gênero —, as meninas adolescentes de hoje serão jovens mulheres, que devem estar preparadas para ocupar e liderar os espaços que lhes são de direito.

Saiba mais: umavitorialevaaoutra.com.br

ONU