Conheça algumas diretoras que privilegiam as mulheres em seus filmes

Diretoras trazem o protagonismo das mulheres em diferentes cenários, como a situação política e social do país, o sustento da família, a relação com a profissão e o próprio corpo

O chamado “universo feminino” é plural, composto de diferentes temáticas e protagonistas. Envolvendo temas desde a saúde física e mental, passando pelos direitos das mulheres, até a história e as produções artísticas realizadas por elas, esse universo vem conquistando cada vez mais espaço.

Com o avanço de movimentos feministas em diferentes lugares do mundo na última década, a hegemonia de homens, brancos e heterossexuais em espaços de poder é uma regra que vem sendo questionada. Uma das inúmeras áreas em que essa hegemonia é vista é o Cinema.

Nesse contexto, cresceram movimentos de críticas à hegemonia de homens na indústria cinematográfica: na direção de filmes e na maioria dos indicados às premiações famosas, além de representar grande parte dos grupos que definem os vencedores de premiações como o Oscar.

Contudo, há décadas, existem mulheres que buscam fazer a diferença dentro dessa indústria, especialmente como diretoras. Conheça algumas cujo trabalho traz olhares questionadores e potentes sobre diferentes questões vividas por mulheres.

Safi Faye

A senegalesa foi a primeira mulher da África Subsaariana que dirigiu um longa-metragem com distribuição comercial — Carta Camponesa (1976). Seu trabalho é composto por vários documentários e filmes de ficção sobre a vida rural no Senegal, trazendo questões vividas pelas mulheres nas regiões interioranas do país.

Um deles é Mossane (1996), ficção que traz a história da garota de 14 anos, vinda de um vilarejo no interior do país, onde era amada por diversos rapazes, incluindo Fara, pobre estudante universitário. Embora Mossane tivesse sido prometida para casar com o rico Diodaye, a garota desafia a própria família e apaixona-se por Fara, recusando-se a aceitar Diodaye como esposo no dia da celebração.

Outro filme conhecido da diretora senegalesa é Selbe (1983), que faz uma análise sobre os papéis sociais e econômicos que são esperados de mulheres africanas que vivem nos interiores de seus países. O longa conta a história de Selbe, que sustenta a própria família enquanto o marido busca trabalho em cidades vizinhas.

Margarethe Von Trotta

A alemã é famosa por tratar de mulheres que marcaram o tempo histórico em que viveram. Rosa Luxemburgo (1986) conta a biografia da economista, filósofa e militante marxista.

Hannah Arendt: Ideias Que Chocaram o Mundo (2012) traz a história da filósofa alemã de origem judaica, conhecida por suas reflexões sobre a liberdade e as origens do totalitarismo, que a fez criar conceitos como o de “banalidade do mal”.

Outros filmes icônicos de Von Trotta são Vision (2009), que relata a história da freira vanguardista que teorizou sobre o orgasmo feminino como aproximação da fé e da conexão com o divino, e As Mulheres de Rosenstrasse (2003), que fala do histórico de resistência de mulheres ao nazismo. Além de diretora, Von Trotta é atriz e roteirista, sendo considerada líder do Novo Cinema Alemão.

Petra Costa

A diretora mineira tornou-se mais conhecida em 2020, após a indicação ao Oscar de Melhor Documentário por Democracia em Vertigem (2019), que narra as últimas semanas de Dilma Rousseff como presidente e mostra a movimentação que a tirou do poder.

Contudo, Petra Costa já havia outros filmes entre os seus trabalhos, trazendo mulheres como protagonistas. Um deles é Elena (2012), cuja história é inspirada na irmã da diretora. No longa, Elena viaja para Nova Iorque com o mesmo sonho de sua mãe: ser atriz de Cinema, deixando a família que vivia na clandestinidade durante a ditadura militar que marcava o Brasil.

Vinte anos depois, sua irmã Petra também quer tornar-se atriz e vai para Nova Iorque à procura de Elena. Após muita busca pelos caminhos que a irmã mais velha percorreu, Petra encontra Elena em um lugar inesperado.

Outro filme da diretora brasileira é Olmo e a Gaivota (2014), que traz a história de uma atriz. Enquanto prepara-se para um novo papel, ela descobre que está grávida. Embora siga querendo continuar trabalhando, seu desejo de liberdade entra em conflito com sua nova condição física, o que acaba colocando sua gravidez em risco.

Sensível, o filme traz as questões e as dificuldades vividas por mulheres que veem seu corpo e sua rotina alterados substancialmente, ao desejarem viver a maternidade sem abrir mão da vida profissional.

Adélia Sampaio

A mineira foi a primeira mulher negra a dirigir um longa-metragem no Brasil — titulado Amor Maldito (1984). O filme narra a história de Fernanda e Sueli, um casal que vive uma intensa paixão, mas que acaba rompendo após crises. Sueli, então, envolve-se com um homem mulherengo e engravida. Sozinha e sem apoio, ela suicida-se, e a polícia levanta suspeitas sobre Fernanda.

À frente de seu tempo, o filme é totalmente inovador e corajoso por abordar a homossexualidade feminina e os preconceitos em torno do tema. Baseado em uma história real, o filme mostra as falas carregadas de preconceito e ódio proferidas por juízes e advogados envolvidos na investigação — retiradas dos autos do processo que Adélia Sampaio teve acesso.

Entre as acusações feitas por autoridades, estava a ameaça à integridade da família tradicional brasileira e a promoção de orgias sexuais. Em 2017, a diretora lançou o curta-metragem Olhar de dentro, que mostra a história de mulheres que viveram na ditadura militar brasileira. O curta é inspirado em vivências da própria diretora, que perdeu um filho quando estava grávida de sete meses, após ser agredida por um policial em uma manifestação ocorrida às vésperas do golpe.

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