‘Cézanne e eu’ – estreia em julho

APRESENTAÇÃO:

Cézanne e Eu’ (Cézanne et moi), que só na França levou 600 mil espectadores aos cinemas no seu lançamento, conta a história de amizade e companheirismo entre o pintor Paul Cézanne e o escritor Émile Zola. Amigos desde a infância, a relação atravessa o tempo e tenta sobreviver aos altos e baixos da vida adulta e, principalemnte, aos caminhos opostos tomados por eles. Eles se amavam com o ardor de garotos de treze anos de idade e seguiram unidos desde sua saída de Aix-en-Provence até suas chegadas a Paris, onde, rapidamente, se tornaram parte da cena de arte em Montmartre e Les Batignolles. Dividiram goles de absinto, dormiram com as mesmas mulheres e desafiaram a burguesia, que devolvia as provocações. Até se tornarem o pintor e o escritor, um reconhecido ainda jovem, enquanto o outor viveu à margem até ser enxergado perto dos 50. Ao longo deste caminho, se admiram, se julgam e se confrontam, colocando em xeque a velha cumplicidade. Se perdem e se encontram, mas tudo sem jamais perder de vista o que os uniu aos 13 anos: o amor.

SINOPSE:

A história de amizade e rivalidade entre o pintor Paul Cézanne (Guillaume Canet) e o escritor Émile Zola (Guillaume Gallienne). Paul é rico. Emile é pobre. Mas dessa união irá surgir uma amizade que resiste ao tempo e às diferenças sociais. Os amigos, que se conheceram no colégio Saint Joseph, aprenderam desde crianças a compartilharem tudo um com o outro. Mas, na busca por realizar seus sonhos, os dois vão aprender a enfrentar os desafios da vida e, principalmente, sobre o valor da verdadeira amizade.

ELENCO:

GUILLAUME CANNET – Emile Zola GUILLAUME GALLIENNE – Paul Cézanne ALICE POL – Alexandrine Zola

DÉBORAH FRANÇOIS – Hortense Cézanne SABINE AZÉMA – Anne-Elisabeth Cézanne GÉRARD MEYLAN – Louis-Auguste Cézanne ISABELLE CANDELIER – Emilie Zola

FREYA MAVOR – Jeanne

LAURENT STOCKER – Auguste Vollard

FICHA TÉCNICA:

Direção – Danièle Thompson

Produção – Albert Koski

Coprodução – Alain Terzian | Romain Le Grand | Vivien Aslanian | Nadia Khamlichi | Gilles Waterkeyn | Bastien Sirodot

Produtores associados – Florian Genetet-Morel | Ardavan Safaee

Música original – Eric Neveux Fotografia – Jean-Marie Dreujou, AFC Edição – Sylvie Landra

Figurino – Catherine Leterrier

Som – Nicolas Cantin | Alexandre Fleurant | Vincent Arnardi

A COPRODUCTION – G Films | Pathé| Orange Studio | France 2 Cinéma | Umedia | Alter Films

IN ASSOCIATION WITH – Sofitvcine 3 | La Banque Postale Image 9 | Cinémage 10 | Cofimage 27

| uFund

WITH THE PARTICIPATION OF – Canal+ | Ciné+ | France Télévisions

WITH THE AID OF – the Tax Shelter of Federal Governement of Belgiumand of the investors of Tax Shelterof the Region Provence-Alpes-Côte d’Azur

DISTRIBUIÇÃO NO BRASIL: Media Bridge e Bretz Filmes


ENTREVISTAS:

DANIÈLE THOMPSON – ROTEIRISTA E DIRETORA

DE ONDE VEIO A IDEIA DE FAZER ISTO FILME, TÃO DIFERENTE DOS OUTROS – QUE COSTUMAM SER COMÉDIAS – NA SUA FILMOGRAFIA?

Quinze anos atrás, eu li um artigo sobre como Cézanne e Zola eram amigos desde a infância, antes de finalmente se separarem. Devo admitir que nunca tinha ouvido falar dessa desavença, fiquei intrigada e comecei a ler as duas biografias. Reli textos de Zola que havia esquecido, olhei para pinturas de Cézanne que eu não conhecia. Percebi um elemento dramático que vai além da mera anedota. Cada vez que eu termino um filme, eu penso em olhar para outras histórias, mas algo sempre me diz: “Não, faça uma comédia. É o que você sabe fazer”. Por isso, fia uma comédia atrás da outra. Até que “Aconteceu em Saint-Tropez” não foi o sucesso que eu esperava. A reação ao filme me desestabilizou um pouco. Então, eu me submergi nas vidas de Cézanne e Zola, sem saber se encontraria o assunto para um filme. Eu li, reli, tomei toneladas de notas. Fiquei absolutamente fascinada por tudo que eu li, por tudo que aprendi.

POR QUE?

Porque eu estava entrando no coração dessas pessoas, eu estava entrando em suas juventudes. Quando falamos de Cézanne, Hugo ou Renoir, hoje em dia, imaginamos velhos notáveis de cabelos brancos. Mas eu descobri jovens no caminho para se tornar algo.

Homens em sua intimidade, em suas vidas diárias, que eram qualquer coisa, menos notáveis. Eles não eram lendas, não eram ícones, apenas homens jovens, com amigos, problemas, sonhos, fraquezas e espera…

Com a ajuda de Jean-Claude Fasquelle, cujo avô era editor de Zola, conheci Martine Leblond-Zola, bisneta de Emile. Esse encontro submergiu o que Cézanne e Zola escreveram e o que foi escrito sobre eles. Eu segui os caminhos que eles trilharam, literal e figurativamente. Consultei os manuscritos de Zola no Bibliothèque Nationale, vendo palavras riscadas pelas suas próprias mãos, fui a museus e fiquei

observando com um olhar fresco as pinturas que me ligaram aos textos, levando fotos dos que falaram comigo, nas paredes, nos livros, na internet. Eu compilei álbuns com todas essas imagens e documentos e senti como se estivesse vivendo no século XIX. Cézanne e Zola se tornaram minha família. Então, um dia, eu me senti pronta para empreender esta aventura. Meus álbuns ganharam vida própria. No começo eu só queria escrever uma sinopse, mas logo percebi que estava escrevendo o filme.

O QUE É QUE TOCA MAIS NESTA HISTÓRIA? NA RELAÇÃO ENTRE CÉZANE E ZOLA?

Tudo. A história tem muitos níveis e é isso que me fascina. É sobre dois amigos que, ao longo de suas vidas, tentam permanecer os mesmos amigos de infância que foram, mas não são mais. É tão forte quanto uma história de amor, se não mais. Como eles mesmos dizem no filme, a amizade é mais difícil que o amor, porque não há pontos de referência, regras ou definições precisas. Histórias de amizade podem ser muito profundas, dolorosas e ambíguas, também. Depois da adolescência, eles começaram a compartilhar dinheiro, mulheres, obsessões, ambição, a dificuldade de querer ser um artista e este é o segundo aspecto que me move. É verdadeiramente o coração do assunto. Como realizar seus destinos como escritor e pintor e continuarem amigos? Como é quando um consegue e o outro não? Quando se pode admirar o outro, mas não vice-versa? O interessante é acompanhar esses destinos que se cruzam. Um filho de pais pobres que se torna um burguês rico, estabelecido e reconhecido. E o filho de pais ricos e burgueses que se torna marginalizado pelo seu estilo de vida pobre e boêmio. Ele fez nada com a sua pintura, viveu com uma mulher com quem ele não se casaria, sua única obsessão era sua arte. E quando começa a se perguntar se a sua inspiração secou, o outro finalmente começa a ser notado. Um escreve seu maior trabalho entre 25 e 50, enquanto o outro só encontra seu caminho como o precursor da arte moderna aos 50 anos. Suas vidas foram em direções opostas.

VOCÊ SE TORNA “PRISIONEIRO DA VERDADE” QUANDO VOCÊ FALA SOBRE PESSOAS FAMOSAS QUE REALMENTE EXISTIRAM?

Sim, claro. Quando eu estava fazendo pesquisa, me perguntei se eu teria liberdade suficiente para fazer um filme. Mas acontece que uma das explicações mais plausíveis para o sucesso individual de Zola é o livro ‘A obra-prima’, inspirado em Cézanne, sua juventude e a amizade dos dois, além de suas obsessões e discussões. E ele o escreveu da mesma forma com que romancistas fazem com a verdade: contou livremente, criando situações que não eram totalmente verdadeiras, se é que eram em partes verdadeiras. Penso que se ele pode tomar essa liberdade, eu também poderia. Por exemplo, Cézanne apresentou Zola à mulher que se tornaria sua esposa e havia rumores de que ela poderia ter sido amante de Paul. Então, eu disse para mim mesma: “Tudo bem, ela era!”

A LINHA PRINCIPAL DO FILME É O “ÚLTIMO ENCONTRO” ENTRE CÈZANNE E ZOLA, EM MEDAN, EM 1888. ISTO REALMENTE ACONTECEU?

Talvez (risos). Algo selvagem aconteceu quando eu estava trabalhando no roteiro. Mesmo que o romance de Zola ‘The Masterpiece’, escrito em 1886, tenha marcado o fim da amizade dos dois – e a última carta conhecida de Cézanne a Zola, lida em voz alta no filme, na qual ele agradece pelo livro, também de 1886 – resolvi fazer 1888 como ponto de referência central do filme. Foi um ano importante para ambos, o pai de Cézanne morreu, o que significou que, de repente, Paul tinha dinheiro. Além disso, alguns meses antes da morte do pai, ele finalmente se casou com Hortense . Enquanto isso, na casa de Zola, 1888 marcou a chegada de Jeanne, a jovem empregada de lavanderia, que causou uma grande reviravolta em sua vida. Emile era tão ordenado até se ver apaixonado e começar a levar uma vida dupla. Sendo assim, eu imaginei – contrariando os historiadores – eles se conhecendo em 1888, e Cézanne chegando à Médan uma última vez, para uma última explicação. Quando o roteiro estava quase terminado, fui a Aix para ver os lugares, havia descrito sem realmente tê-los visto. Lá, eu conheci Michel Fraisset , que reúne objetos em uma exposição permanente, aberta ao público. Michel me perguntou: “Você sabe sobre a última carta de Cézanne para Zola?”. E eu disse que: “Sim, aquela que todos os historiadores falam sobre”. Então, ele me pegou de surpresa: “Não, falo de uma carta que foi vendida na Sotheby’s há três meses”. Ele se referia a uma carta de 1887, vendida por US $ 17.000, em que Cézanne agradece a Zola por ‘A Terra’, o romance seguinte após sua obra-prima . A carta termina com “eu vou ver você”. Em 1887! Um ano após a última carta conhecida. Isso não é
extraordinário? Minha licença dramática se tornou, de repente, plausível, o que eu imaginei pode ter realmente acontecido!

COMO VOCÊ EXPLICA ZOLA NÃO TER COMPREENDIDO CÉZANNE, MESMO TENDO DEFENDIDO A VANGUARDA, OS IMPRESSIONISTAS, MANET…

Entre os 26 e 30 anos, Zola foi um crítico de arte maravilhoso. Ele defendeu os impressionistas quando todos os outros cuspiram neles. Ele dedicou um artigo a Cézanne, mas não o mencionou no texto. Ele amava seu amigo, o aplaudiu e imaginou ele conseguiria, mas, em seu coração, achava o contrário. Além disso, com o passar do tempo, os gostos de Zola mudaram, eles se tornaram mais acadêmicos, mais conformistas (basta olhar para a casa dele, cheia de antiguidades empoeiradas!). Com 48 anos – idade avançada para a época! – escreveu um artigo em que repudiou completamente os Impressionistas. Além disso, é preciso lembrar que apenas em seus 10 últimos anos de vida Cézanne pintou o projetaria para a história. E quando isso aconteceu, eles não se viam mais. Além disso, havia questões políticas. Cézanne, como todos os seus amigos artistas na época, era anti- Dreyfusard – acontecimento político que dividiu a França em dois lados, incluindo o meio artístico. Diante de tantas diferenças, mesmo se eles se encontrassem, Zola ter entendido Cézanne? Ele ainda estava aberto a isso? O que ele estava escrevendo, então, não tinha nada a ver com o que escrevia aos 25 anos.

ENQUANTO VOCÊ ESCREVIA, VOCÊ IMAGINAVA QUAIS ATORES TORNARIAM ESTAS PESSOAS REAIS?

Eu tentei não pensar nisso, teria me travado no meio do caminho. Na verdade, eu procurei atores que se parecessem com eles e, também, que pudessem viver os personagens aos 40 e em suas juventudes. Só comecei a pensar sobre isso no fim do roteiro. Guillaume Gallienne foi o primeiro que me veio à cabeça, desde “Avenue Montaigne eu queria trabalhar com ele. Eu o vi mais como Zola por imaginá-lo mais como um intelectual. Mas quando o entreguei o roteiro, ele me disse: “Quero ser Cèzanne” e me sugeriu fazer uma leitura. Fizemos e não me restou nenhuma dúvida de que ele poderia ser Cèzanne. Em seguida, precisava encontrar meu Zola. Foi quando a agente que cuida do Gallienne me sugeriu Guillaume Canet, que disse sim imediatamente.

FOI UM FILME DIFÍCIL DE FINANCIAR?

Hoje em dia, nenhum filme é fácil de financiar. Especialmente um filme de época, diferente dos projetos comuns e dos meus filmes anteriores, que podem assustar os tomadores de decisão . Mas o homem da minha vida, Albert Koski , trabalhou pessoalmente e apaixonadamente para tornar este filme possível. Foi uma grande alegria ao lado dele neste projeto atípico, que estava tão perto de ambos os nossos corações. E ele foi capaz de colocar a Pathé nesta nossa aventura, além de outros que também participaram da produção.

VOCÊ FILMOU EM LOCAIS REAIS…

Filmamos a maioria das cenas que deveriam acontecer em Paris em Moulins – afinal, era muito mais simples! Mas sim, nós fizemos parte da fotografia em lugares onde a história realmente aconteceu. Filmamos no jardim de Zola, em Médan, em sua lavanderia. Poderíamos ter rodado dentro da casa dele, mas há um trem que passa de quatro em quatro minutos! Nós também filmamos na casa do pai de Cézanne, em Jas de Bouffan, propriedade da família do pintor, que, em breve, será restaurada e transformado em museu . No andar superior, onde Cézanne pintou, eles têm seu atelier. Ele só construiu um novo ateliê ao herdar o dinheiro do pai, foi quando ergueu o Atelier dês Lauves . Também estivemos nas pedreiras Bibémus que permanecem exatamente a mesmo desde que Cézanne as conheceu. Sua cabana também permaneceu intacta, com seus potes e pincéis. Ele dormia lá com freqüência, pois era um lugar excelente para captar a luz do amanhecer. É um ponto mágico, foi tudo obviamente muito comovente e inspirador.

GUILLAUME GALLIENNE – PAUL CÈZANNE

DANIELE THOMPSON IMAGINOU VOCÊ COMO SENDO MAIS PROVAVELMENTE O ZOLA, MAS VOCÊ ESCOLHEU DAR VIDA A CÉZANNE …

Tive a sensação de já ter tocado um pouco no Zola. Eu tenho a impressão de que a missão de Zola era a mesma que tive com Pierre Bergé’s , em “Yves Saint_Laurent”, de Jalil Lesper, como o cara sábio, lúcido. Por outro lado, Cézanne, ” c’est moi “. Por quê? Suas relações com o seu pai, seu aspecto de garoto rico, de jovem zangado… Danièle ficou surpresa quando eu disse que queria fazer uma leitura pra que ela julgasse se funcionaria, ou não.

COMO VOCÊ SE PREPAROU PARA VIVER CÉZANNE?

Danièle me fez conhecer um de seus amigos, um pintor de Marselha com rugas magníficas, olhos lindos e um sorriso encantador: Gérard Traquandi. A primeira vez que fui vê-lo em seu estúdio – sete ou oito meses antes das filmagens – ele pegou uma tela, cavalete , e me disse: “Cézanne era assim, com seus pincéis, sua paleta, e é isso … Então, aqui, tem um pouco de azul cobalto”. Eu tinha visto algumas fotos de Cézanne trabalhando, vi como segurava o pincel, e simplesmente comecei a pintar. Enquanto isso, Gérard ia me dando dicas. Também fomos ao Musée d’Orsay e ele me guiava. Graças a ele, enxerguei Cèzanne pintando, pude saboreá-lo, compreendê-lo, ver sua abordagem mais matemática do que literária da arte. Encontrei Cèzanne graças à cor, pois Gérard me disse que ele passou o tempo trabalhando em toda a escala, do azul ao amarelo. E, claro, também li muito a seu respeito, além de toda correspondência com Zola.

LEU A ‘OBRA-PRIMA’ TAMBÉM, EU IMAGINO.

Não! Eu odiei! Mal comecei e desisti. Fiz um ciclo inteiro de Zola, com ‘L’Assommoir’ , ‘Germinal’ , e ‘A matança’ , mas não a obra-prima .

VOCÊ SENTIU O MESMO QUE CÉZANNE, DE FATO…

Em todo caso, eu não queria ser influenciado pela visão de Zola sobre Cézanne. Eu queria entrar na história através da visão de Danièle. Pra ser sincero, eu nunca gosto de fazer muita pesquisa, prefiro sentir. Por isso, durante as minhas férias, antes das filmagens, aluguei uma casa perto de Aix. Eu vi meu amigo Bruno Raffaelli, que, como Cézanne, vem do mesmo meio – a grande burguesia de Provence. E ele me disse algo bonito: “Refletindo sobre seu filme enquanto caminhava nas florestas de pinheiros, pensei: ‘Não é difícil entender por que Cézanne odiava os impressionistas, olhe para essas linhas. Não são nada além de linhas que correm, cruzam e colidem! O oposto do impressionismo. Com o que ele tinha diante de seus olhos, ele obviamente não poderia suportá-los”.

O QUE TOCA MAIS SOBRE CÉZANNE?

A sua busca. O que ele está interessado não é um território, é uma paisagem… Além daquela terrível sensação que o acompanhou de saber que ele estava certo, mas sem encontrar um caminho de provar. Ele era muito ciente tanto do seu talento quanto da sua impotência para sublimar isso. Ele não tinha certeza de si mesmo, mas tinha certeza de sua arte. Isso é simultaneamente fabuloso e doloroso. Ele terá sucesso graças ao seu esforço teimoso, mas principalmente à sua intransigência contra si mesmo. Você sente tudo isso em sua pintura. Sua evolução é chocante.

O QUE MAIS APROXIMA VOCÊS DOIS?

Sua intransigência. Que não é necessariamente considerada uma virtude, até que você esteja morto! Enquanto você estiver vivo, é bem difícil para os outros e para você mesmo. Na verdade, esconde sofrimento, frustração, um sentimento de incompreensão. Você raramente está satisfeito… Como Cézanne, eu também posso, às vezes, ser vítima de pensamentos sombrios. Quando isso acontecia, Danièle e eu tínhamos um codinome: “Cachorro preto” – a expressão de Churchill para definir seus momentos de depressão. Ela entendia e me deixava sozinho, nunca usou isso contra mim, especialmente porque bastava eu começar a atuar para a depressão desaparecer.

VOCÊ JÁ HAVIA TRABALHADO COM GUILLAUME CANNET?

Fizemos uma leitura com Danièle e os personagens simplesmente iam se desenvolvendo ao longo de nossas conversas. Foi tudo simples e natural. Guillaume e eu nos conhecemos desde que tínhamos 19 anos. Um dos meus melhores amigos contracenou com ele em “La ville dont

le prince est un enfant”, no Théâtre Hébertot . Estivemos no Cours Florent ao mesmo tempo, embora não na mesma classe. Inclusive, já causamos muito problemas juntos em uma estadia no Mercure em Honfleur, ou seja, há algo de hard-rock entre nós. Nós não precisamos criar a proximidade entre o personagens, ou forçar sua ternura. Já estava tudo lá.

FOI IMPORTANTE PARA VOCÊ CONHECER OS LUGARES ONDE CÉZANNE VIVEU E TRABALHOU?

No começo eu não achei, pensei ser totalmente insignificante. Até que, um dia, depois de olhar os pinheiros, fiquei imaginando como Cézanne os pintou, tentando entender como você expressa o vento e não a árvore – que é o que Cézanne disse: “Eu quero pintar o vento”. Ali eu percebi que estava ficando comovido, que aquilo não era um clichê, mas algo que fazia sentido sobre mim mesmo.

GUILLAUME CANET | EMILIANO ZOLA

O QUE MAIS TE CHAMOU ATENÇÃO NO PROJETO DE DANIELLE QUANDO ESTE CHEGOU ATÉ VOCÊ?

O roteiro, foi muito bem escrito, gostei do aspecto não estruturado que o diferencia dos tradicionais. E gostei especialmente da história, que vai além de Zola e Cézanne. Eu descobri o relacionamento deles, a amizade entre os dois e, depois, sua briga. Eu vi  personagens  cativantes,  ao  invés  de  figuras emblemáticas. Enxerguei, pela primeira vez, Emile e Paul, e gostei disso. Havia uma história com poder de fascinar as pessoas. Outro tema que me tocou, pessoalmente, foi a busca de um artista por reconhecimento, pude viver uma experiência violenta neste sentido no meu último filme, quando fui confrontado com crítica severa e indiferença da audiência. Vi isso no projeto, que expressa a insegurança, a busca da alma, a paixão pelo próprio trabalho, seja pictórico ou literário. O que os personagens passam é preciso e magnífico. Quando você cria, quando escreve, quando pinta, quando faz filmes , você passa por essas provações todos os dias, conhece aquelas situações, sentimentos e autoquestionamentos. Além disso, pude conhecer melhor o Zola como pessoa, tinha lido poucas obras suas, mas foi muito bom enxergá-lo, de alguma forma, próximo a mim.

COMO?

Alguém com um itinerário particular, de aspecto terreno, um pouco rude, um camponês… O jeito que Charles Péguy o descreve quando ele o vê pela primeira vez sair de casa é bastante engraçado, ele o descreve como um camponês de alguma província aleatória, ranzinza e parecido com um urso, mas que, pouco a pouco, se torna agradável. Isso poderia soar um pouco como eu, que, à primeira vista, posso parecer um pouco reservado. Eu também me identifico com a lealdade de Zola a seus amigos, sua honestidade. Em suma, eu pude me identificar em muitos aspectos e isso foi emocionante.

O QUE MAIS TE TOCA A RESPEITO DE ZOLA?

Essa discrepância entre a obra e o homem, o escritor que continua a se vituperar, a confrontar a verdade da sua época, e o homem que estava se tornando respeitável, e que tinha problemas em lidar

com isso. Além de sua retidão e sua resolução, a que eu sou muito sensível. Ele estava sempre certo de si mesmo. Durante o Dreyfus Affair, claro – que aconteceu após os eventos que abordamos no filme – onde ele lutou a boa luta até o amargo fim. Mas também por sua consideração à sua esposa, a quem ele não queria deixar quando se apaixonou com Jeanne. E claro, sua lealdade a Cézanne, apesar de tudo.

POR QUE VOCÊ ACHA QUE A AMIZADE DELES DUROU TANTO, MESMO COM SUAS DISPUTAS E CONFLITOS?

Eu acho que eles eram exemplos um para o outro. Cézanne foi muito inspirado pela determinação e paixão de Zola, enquanto no começo ele era um pouco mais volúvel. E Zola foi muito inspirado por Cézanne,  ele   até   roubou   sua   vida,   como   ele   mesmo   disse   quando ‘The  Masterpiece’ apareceu. Eles nutriram muito um ao outro. Então, seus caminhos se divergiram. O seu sucesso de um, a falta de sucesso e reconhecimento do outro, têm muito a ver com isso. E, ainda assim, eles estavam ligados por algo muito profundo, sentimento de quem carrega uma amizade de infância. Eles são provavelmente os únicos a dizer uns aos outros o que querem dizer, como se cada um fosse o suporte, o espelho do outro.

QUAL VOCÊ ACREDITA TER O MAIOR TRUNFO DO GALLIENNE PARA SER ESCOLHIDO PARA INTERPRETAR CÈZANNE?

Talvez e eu corra o risco de desagradá-lo! ( risos ). Mas sua fragilidade, sua busca constante por si mesmo, enriqueceram muito o personagem. Cézanne é um incontrolável, ele está sempre à beira da navalha, pode explodir a qualquer momento. Decide deixar Paris em um impulso e voltar para Aix! Guillaume é um pouco assim! Cézanne, apesar das aparências, é mais vulnerável às opiniões dos outros do que Zola. Ele tem menos perspectiva do que seu amigo. E a sensibilidade e a fragilidade do Guillaume tornam esse aspecto muito tocante. Quando vi o filme, ele me surpreendeu. Durante a filmagem eu nem sempre entendi o que ele estava fazendo, especialmente com essa sensibilidade crua dele. Quando assisti ao resultado, eu vi o que ele foi capaz de construir a partir da fragilidade desse personagem.

FOI INSPIRADOR FILMAR NO JARDIM DE ZOLA, EM MÉDAN?

Sim, foi inacreditável, e, felizmente, para mim, começamos a filmagem na casa em Medan . Quando cheguei no set, a bisneta de Zola, uma mulher encantadora que agora cuida do casa e museu. Quando cheguei, pude ver a surpresa em seus olhos, como tivesse visto um fantasma! (risos) “Ele é lindo! Você é linda! Isto é louco, ele é ele! Seu olhar, o jeito que você anda, o jeito que você fala, é inacreditável”. Ela ficou muito comovida e, durante todo o primeiro dia, ela não parou de me fotografar! Ela me levou ao escritório de Zola, que permaneceu intacto e que é, obviamente, permeado por tudo o que ele escreveu lá. Eu tirei uma foto da lareira e seu latim inscrição : “sine die, sine linea ” (nenhum dia sem linha).

Ao rodar no jardim, pensava que ele havia andado por lá todo dia e isso foi muito inspirador… E ainda estivemos na casa de Cézanne, em sua cabana, enfim, um set de filmagem real!

O RELACIONAMENTO DE ZOLA COM CÉZANNE ESTÁ NO CORAÇÃO DO FILME, MAS VOCÊ TAMBÉM CONSEGUE VER A IMPORTÂNCIA DE SEU RELACIONAMENTO COM SUA MÃE E COM SUA ESPOSA…

Zola tinha uma atitude muito particular em relação às mulheres. Ele perdeu o pai quando era bastante jovem, por isso, foi criado por sua mãe e acabou focando todo o seu carinho por ela, que fez o mesmo por ele. Então, seu amor por sua esposa Alexandrine é, em certo sentido, uma continuidade desse amor. Além disso,  ele impõe sua  mãe  a ela  o tempo todo. A prova  é quando ele diz:  “Eu  não estou pronto para viver totalmente com”Cartas para Alexandrina”. Nele, você pode ver o quanto ele a amava, mas sem qualquer fogo ou paixão. Ele escreve seus múltiplos detalhes, mas sem nunca se incendiar. Eu costumo pensar que ele não descobriu o amor físico até muito tarde, quando Jeanne, a jovem lavadeira entrou em sua vida, despertou seu desejo, seus sentidos …

AS MULHERES EM ‘CÈZANNE E EU’ (Por Danièle thompson)

ALICE POL | ALEXANDRINE ZOLA

Madame Zola é um personagem fascinante. Você poderia fazer um filme sobre ela. Ela era uma menina nascida na pobreza, uma mãe solteira que abriu mão de seu bebê no nascimento, e que viveu sempre com dinheiro contado. Ela se tornou a dona de casa perfeita, uma respeitável burguesa, que passou toda a sua vida cuidando de seu marido e seu trabalho. Ela também foi capaz de se superar o notório caso de Jeanne, a lavadeira por quem Zola apaixonou-se e com quem teve dois filhos, enquanto eles nunca foram capazes de ter nenhum. Pior ainda, ela descobriu tudo isso através de uma carta anônima! Zola conseguiu persuadi-la a permanecer ao seu lado e aceitar sua vida dupla. Para todos, ela era Madame Zola, a esposa modelo de um escritor mundialmente famoso. Ela nunca quis ver Jeanne novamente, mesmo que ela gostasse muito dela enquanto prestava serviço a eles, mas quis ver seus filhos. Depois da morte de Zola, ela se aproximou de Jeanne e se ofereceu para adotar a duas crianças, para quem deu o nome de Zola para que não morresse.

DÉBORAH FRANÇOIS |HORTENSE CÉZANNE

Ao contrário dos Zola, que são um casal muito unido e que assim permanecem, aconteça o que acontecer, os Cézannes são um tipo bizarro de casal. Vamos dizer que Paul tolera Hortense mais do que a ama . Eles tiveram um filho a quem ele amava muito, mas isso era a única coisa que contava em sua vida. Ele escondeu sua existência de seu pai, e, por um longo tempo, se recusou a casar com ela. Não há muito escrito sobre Hortense, e, de certa forma, me senti um pouco mais livre para criar a personagem. Eu fiz dela uma mulher desajeitada, não muito astuta, ou muito diplomática, mostrando os motivos que a tornavam não muito popular. No contra mão dessa relação, Cézanne pintou muitos retratos de Hortense, nos quais ela está quase sempre vestida de azul, o que se tornou sua marca de figurino.

Porém, não há retratos nus dela, o que me fez pensar que os quadros estavam entre as pinturas que Cèzanne destruiu. Há algo bonito sobre uma mulher posando nua para um pintor e, também, é a chance de mostrar o quanto pintores podem ser verdadeiros tiranos, torturadores, e suas espoisas mártires, condenadas a ficarem parados por horas a fio.

FREYA MAVOR | JEANNE

Jeanne, a jovem lavadeira que iria causar estragos no coração e a vida de Zola, foi um papel difícil de ser escrito, porque o filme mostra apenas seu encontro, e não a vida em comum que viveram. Ela é uma personagem muito importante, mas era quase um papel silencioso . Eu estava com medo que isso espantasse todas as atrizes. Me encantei por Freya Mavor em um filme de Joann Sfar, a achei magnífica. Fiquei espantada por ela aceitar um papel sem diálogo, mas ela estava certa – sua presença silenciosa é impressionante… Freya tem a mesma simplicidade, a mesma sensualidade, a mesma juventude de Jeanne – todas essas coisas que colocam o coração ‘velho’ de Zola em chamas.

ISABELLE CANDELIER | EMILIE, MÃE DE ZOLA

Emile e Paul tinham o amor pelas mães em comum. Eu achei interessante tirar proveito do vínculo que as mães tinham com o melhor amigo do seu filho. Quando as crianças crescem, quando eles se tornam “velhos”, seus amigos de infância se tornam “velhos”, também, mas, ainda assim, sempre existe uma indulgência especial, um tipo de ternura. Escondido dentro do velho homem grisalho ainda está o garotinho que costumava vir para lanches no final da tarde. Eu achei legal tocar nisso, porque isso também faz parte da história da amizade entre esses dois garotos. Emilie, mãe de Zola, e Alexandrine, sua esposa, não se davam bem, fato que o fazia sofrer, por adorar sua mãe. Inclusive, sempre quis que ela morasse com eles, assunto que gerava conflito com a esposa, que, por fim, acabou cuidando dela durante os últimos meses de sua vida.

SABINE AZÉMA | ANNE-ELISABETH, MÃE DE CÉZANNE

A mãe de Cézanne nem sempre compreendia seu filho ou suas aspirações, mas ele era seu filho. Ela tinha uma relação afetuosa com ele, enquano seu marido, pai de Cèzanne, era muito duro com o filho.