Casa Vogue de junho traz a ONG Teto, que atua construindo casas emergenciais e oferecendo autonomia a comunidades informais

De origem chilena e presente em 19 países, a Teto atua há 12 anos no Brasil e tenta combater a falta de saneamento e serviços básicos na América Latina

“AQUI, A GENTE TEM DE GRITAR, GRITAR, GRITAR PARA TENTAR SER OUVIDO, mas o governo sempre finge que não vê. Para virem tirar lixo da comunidade, precisamos queimar pneu, bater panela”. O protesto é de Cleide Faria Santos, líder da comunidade Porto de Areia, em Carapicuíba, SP. De acordo com dados do censo do IBGE de 2010, assim como Cleide, cerca de 11 milhões de pessoas no Brasil vivem em núcleos de povoamento informais, e também custam a ser notadas pela sociedade e instituições governamentais. “Os aglomerados subnormais, como são nomeados, geralmente sofrem com falta de serviços básicos: água, luz e saneamento, além da própria moradia em si”, informa Nina Scheliga, diretora executiva da Teto, organização latino-americana sem fins lucrativos que direciona suas atividades para aliviar essa realidade.

A face mais conhecida de seu trabalho é a construção de residências emergenciais pelo país (a ONG está em cinco estados: BA, MG, RJ, SP e PR) – mais de 3.800 unidades já foram erguidas. A entidade, porém, ainda se empenha no desenvolvimento das coletividades como um todo, capacitando habitantes para que se organizem e transformem seu espaço. “A moradia é o aspecto mínimo para a sobrevivência humana, mas é importante cuidar do entorno e tornar a comunidade participativa, agente das mudanças que ela deseja”, resume Nina.

Para realizar este propósito, escutar o outro é essencial. E é isso o que fazem os voluntários da organização. “Eles são como um ombro amigo com quem podemos desabafar”, conta Cleide. “Antes de ajudar nas obras e construir as casas, eles nos ouviram e perguntaram sobre os sonhos de cada um. São ouvidores de necessidades e construtores de sonhos”, poetiza Dyne Ayne de Jesus Ramos, líder da comunidade Che Guevara, em Dias D’Ávila, região metropolitana de Salvador, BA.

Colocar jovens em contato com realidades totalmente diferentes daquelas em que estão inseridos também é um dos pilares da atuação desenvolvida pela ONG. “Esse convívio e o trabalho em conjunto têm um poder de transformação e de quebra de preconceitos enorme”, pontua Nina. E a troca é enriquecedora para os dois lados. “Nós estamos muito acostumados com um tipo de conhecimento, o conhecimento acadêmico, e acabamos ignorando os saberes ancestrais. A gente tem conhecimento técnico, mas eles têm conhecimento de vida. Sermos recebidos todo domingo com sorrisos, alegria, hospitalidade… Isso ensina muito sobre como encarar a vida e os problemas”, compartilha Alice.