Banda viajante, Čao Laru apresenta novo disco, “Fronteiras” e segue em turnê pelo Brasil

Em novo álbum, grupo franco-brasileiro reflete sobre pertencimento e imigração e atualiza sonoridade com referências latinas e do leste europeu

Um muro de concreto separando os Estados Unidos do México; brasileiros reclamando da entrada de venezuelanos; o Brexit e a Europa que se fecha para a imigração. Esquerda contra direita. Falsas notícias e a verdade. Vida digital e vida real. Quantas divisões existem entre nós e quantas ainda podem surgir?

Banda viajante formada por quatro brasileiros, uma francesa e duas brasileiras que vem rodando o mundo em uma kombi e motorhomedesde 2016, o Čao Laru reflete sobre as barreiras que nos separam em seu segundo álbum, “Fronteiras”, que foi lançado em 01 de fevereiro nas plataformas digitais. O disco, com 13 faixas inéditas, também teve edição especial em vinil.

O Čao Laru (pronuncia-se Tchau Larru) é formado por músicos do Brasil e da França que se conheceram em 2015, durante o mestrado em Pedagogia Musical, em Rennes, na França. Desde então, o grupo já passou por mais de 20 países e lançou um disco, “Kombiphonie”, além de um primeiro EP chamado “Čao Laru”, lançado em 2016. No ano passado, a turnê deste álbum no Brasil rendeu no primeiro semestre 40 shows no Brasil e mais 50 na Argentina e no Chile além de 60 apresentações na França e na Suíça no segundo semestre. A turnê de 2019 já contabiliza mais de 80 shows que percorreram 17 estados brasileiros (passando por todas as regiões). É natural, portanto, que a partir deste contato com diferentes culturas e fronteiras o tema da diáspora moderna transborde nas letras do novo trabalho.

“É um disco que discutimos temas sociais e políticos dos países em que estivemos, e no qual estão impressas nossa solidariedade, resistência e esperança no ser humano, questionando o tempo inteiro o porquê das fronteiras”, conta Noubar Sarkissan, brasileiro com anos de vivência na França e responsável pelo cavaquinho, violão, acordeom, pandeiro e voz. Marie Tissier (violoncelo e voz), Nicolle Bello (voz), Felipe Trez (bateria), Ana Brandão (dança) Fábio Pádua (flauta, clarinete, violão e bandolim) e Pedro Destro (baixo elétrico) completam a formação.

Noubar assina a composição de “Teu Dólar Não Vale Mais”, lançado como single em dezembro e que conta com participação de Juliana Strassacapa, da Francisco El Hombre. Durante uma turnê pelo México, a banda demorou horas para encontrar uma “praia pública” que não estivesse dominada pelos resorts. Exemplo de como a vivência itinerante está intimamente ligada aos impulsos criativos da banda, a canção desenha um cenário onde um garoto quer apenas nadar, mas não pode. “Como faz pra entrar na praia privada norte-americana? / a grana afana o que é belo e bota na vitrine”, diz a letra.

A divisa entre quem somos na infância e quem nos tornamos quando adultos é o foco de “Ames d’enfants”, composta por Laura Aubrey. As diferenças políticas – e as semelhanças trágicas – aparecem em “Marielle e Santiago Presentes”, que evoca os assassinatos da deputada carioca e do ativista argentino Santiago Maldonado. Já “Passaporte Passarinho” compara os fluxos humanos migratórios da África para a Europa com o movimento de travessia das andorinhas que, anualmente, cruzam o Mediterrâneo livremente.

Musicalmente, “Fronteiras” mostra o grupo experimentando novos territórios. As referências brasileiras e francesas de “Kombiphonie” (chacareca, afoxé, samba, o baião e a valsa francesa ), ganham a companhia de ritmos do leste europeu, hip hop e milonga. Estão ali polifonias vocais, combinação entre instrumentos acústicos e elétricos e arranjos que quebram as divisões imaginárias entre gêneros musicais, mas novas texturas – frutos da produção assinada por Felipe Trez, baterista da trupe.

“Acho que esse disco registra uma maturidade musical da banda que, após quase três anos na estrada, não para de se transformar e de absorver influências dos artistas, paisagens e demais personagens dos lugares por onde passamos. Incorporamos o baixo elétrico e a bateria às performances ao vivo e levamos essa dinâmica para o estúdio. Sinto que ampliamos as possibilidades sonoras do grupo”.

Era exatamente o que Felipe Trez desejava quando topou produzir o disco de sua própria banda. “Eu queria manter nossas inspirações na música brasileira, francesa, do leste europeu e dos balcãs, e adicionar elementos de jazz, pop e do rock”, conta o produtor. Para Trez, esse disco marca uma “eletrificação” da banda. “Ganhamos uma potência que o formato acústico, ao qual estávamos acostumados, não tem. Fui em busca de uma paleta de cores amplificada”.

Houve também um desafio logístico para a produção do álbum. “Compomos, arranjamos e gravamos tudo enquanto estávamos em turnê no Brasil e na Europa. É um disco produzido na estrada”, conta.  

“Fronteiras” é mesmo um disco-jornada e soa como uma viagem em que cada faixa é uma parada. O último desembarque é em “Saudade ou Gasolina”, composição de Noubar, Laura e Felipe com Luiz Gabriel Lopes, que acompanhou a banda em parte da turnê brasileira, e parece olhar para trás para observar o que foi vivido. “Eu tinha 17 anos / eu resolvi mudar de planos / do medo criei coragem / segui o rumo da viagem”.

Além de Juliana Strassacapa e Luiz Gabriel, o álbum conta com as participações de Luiz Gabriel Lopes, Livia Carolina, Henrique Mancha, Tiago Myazakie Manuel Tirso. O disco foi gravado no segundo semestre de 2018 em Rennes (FRA), São Paulo e Campinas. A produção desta turnê está a cargo da Tecer Cultural em parceria com Noubar Sarkissan e a Navegar Comunicação e Cultura.

Foto: Aninha Moraes