A verdadeira história do sanduíche mais famoso de São Paulo: o bauru

A Semana de Arte Moderna de 1922, no Teatro Municipal de São Paulo, é um dos acontecimentos mais importantes da história cultural brasileira por causa da exibição de obras de Mário de Andrade, Anita Malfatti, Monteiro Lobato, Tarsila do Amaral e Oswald de Andrade. No entanto, quase ninguém sabe que, quando as portas do velho edifício no centro da capital paulista eram fechadas, todos eles iam para um bar ali ao lado, no Largo do Paissandú: o Ponto Chic.

 

Fundado naquele mesmo ano pelo italiano Odílio Cecchini, o bar ficou conhecido quase duas décadas depois por ter criado o bauru, sanduíche típico da cidade que hoje é encontrado em qualquer padaria. O bauru do Ponto Chic foi reconhecido como “autêntico” em 1998 pela Câmara dos Vereadores de Bauru, que também oficializou a receita: um pão francês com rosbife, fatias de tomate, picles e uma mistura de queijos derretidos em banho-maria (prato, estepe, gouda e suíço).

 

No entanto, não foi nenhum garçom ou chapeiro que o inventou, mas um estudante da Faculdade de Direito do Largo São Francisco, também não muito longe dali.

 

A versão contada pelo estabelecimento ー a história oficial ー é que Casimiro Pinto Neto, conhecido na universidade por “Bauru” por ter nascido na cidade de mesmo nome, chegou ao balcão do Ponto Chic em um dia de 1937 pedindo um lanche diferente ao atendente de plantão.

 

“Era um dia que eu estava com muita fome. Pedi ao sanduicheiro Carlos ー hoje já falecido: ‘Abre um pão francês, tira o miolo e coloca um pouco de queijo derretido dentro’. O Carlos já ia fechando o pão quando eu falei: ‘Calma, falta um pouco de albumina e proteína nisso'”, contou Casimiro em uma reportagem do próprio Ponto Chic.

 

“Eu tinha lido em um livreto de alimentação para crianças da Secretaria da Educação e Saúde que a carne era rica nesses dois elementos. Então falei pro Carlos: ‘Põe umas fatias de rosbife junto com o queijo e umas fatias de tomate (a vitamina)’. Quando eu já estava no segundo sanduíche chegou meu colega ‘Quico’, o advogado Antônio Boccini Jr., que pegou um pedaço do meu lanche e gostou. Então ele gritou para o garçom: ‘Me vê um desses do ‘bauru'”, completou.

 

Já famoso pelo bauru, o bar seguiu sendo um dos principais pontos da cidade: nos anos 1940, os donos pediam que mulheres não entrassem, porque caso contrário veriam os intensos debates dos homens ali dentro. Na década seguinte, Adoniran Barbosa e os Demônios da Garoa eram frequentadores assíduos, em uma época em que, nos andares superiores do prédio, funcionava o bordel da francesa Madame Fifi.

 

No período que se seguiu, passaram por suas mesas o então prefeito de São Paulo, Jânio Quadros, o governador Franco Montoro, o cantor Orlando Silva, o jornalista esportivo Blota Júnior e vários torcedores e jogadores do Palmeiras, porque o proprietário era membro do clube.

 

Apesar da fama atual, o Ponto Chic quase fechou as portas definitivamente nos anos 1970, quando recebeu uma ação de despejo do prédio histórico no centro da cidade, passou três anos e deixou de funcionar. Foi Antônio Alves de Souza, um antigo garçom do bar, que comprou a marca do antigo dono e reabriu o estabelecimento em um novo endereço: no bairro de Perdizes, na zona Oeste de São Paulo, em 1978. Três anos depois, ele conseguiu reinaugurar o velho endereço do Largo do Paissandu ー ele ainda abriria uma terceira e moderna unidade no bairro do Paraíso, no centro, em 1986, com coifa de parede, um amplo salão e até uma lareira para pizzas.

 

Em 2017, o bar comemorou os 80 anos da receita com uma série de ações e eventos. Hoje com três filiais espalhadas pela cidade, o primeiro prédio segue sendo um dos cartões-postais do centro paulistano com sua fachada original. Segundo os atuais proprietários, os chapeiros contratados passam por um treinamento antes de começar a trabalhar para manter o sabor da receita original ー enquanto algumas lanchonetes adicionaram aos seus cardápios elementos inspirados na receita.

Crédito: Ponto Chic
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