A formação de artistas e a linguagem do teatro

O Núcleo de Artes Cênicas do SESI São José dos Campos apresentou no 34º Festivale uma montagem de “Revolução na América do Sul”, texto escrito por Augusto Boal (1931-2009) nos anos 1960. Como se trata de uma montagem estudantil, é natural que haja desequilíbrios e fragilidades, e que as propostas do espetáculo não sejam muito ambiciosas. Não há como abordar o espetáculo como se fosse uma obra de artistas profissionais ou um projeto independente. Para se realizar uma montagem com alunos, é preciso fazer muitas concessões, de todas as partes. Assim, o que procuro fazer aqui é colocar uma ou outra questão que possa, de algum modo, contribuir para o debate sobre a formação de artistas de teatro e sobre as ideias de fazer teatral que a peça coloca em jogo.

            Muitas vezes, as produções de final de curso costumam adotar o mesmo procedimento: escolher um texto previamente escrito por um artista reconhecido e encaixar os perfis dos alunos nos papeis e participações possíveis. Por um lado, há um valor pedagógico nesse procedimento, que dá aos estudantes a oportunidade de se debruçar sobre um legado histórico. Por outro, esse hábito reforça a cultura de teatro que entende o texto como o centro da criação e que o trabalho de atuação é não apenas subordinado à elaboração de pensamento de outra pessoa, mas separado da criação dramatúrgica. Nem sempre, nesse modelo de ensino do teatro, os atores e as atrizes têm oportunidade de encontrar a linguagem que melhor expressaria seus anseios artísticos e possibilidades criativas. Mas, como toda plataforma de ensino, o espetáculo é um ponto de partida, e a experiência do trabalho em um grupo numeroso e diverso é um exercício fundamental.

            Quanto à escolha do texto, é sintomático que um grupo de alunos se dedique, no momento em que vivemos, a montar uma peça escrita por um artista que foi tão comprometido com as questões políticas do Brasil de seu tempo. Nesta montagem de “Revolução na América do Sul”, os quase vinte integrantes do elenco se dedicam a contar a história de José da Silva, um trabalhador que fica desempregado e empreende uma jornada para conseguir arranjar o que comer. No seu trajeto, passa pelo descaso e pela inoperância de diversas instâncias do poder público. O elenco aproveita as deixas das críticas feitas pelo autor aos políticos de sua época para insinuar algumas alusões, demasiado tímidas, ao momento atual.

            O espetáculo conta ainda com algumas inserções musicais que também aludem ao desejo de protesto do grupo. A relação entre música e política no teatro brasileiro é, sem dúvida, um recurso cênico que faz parte do legado de Boal. No seu show “Opinião”, por exemplo, os artistas davam seus depoimentos políticos por meio de canções cantadas ao vivo[1]. Os momentos iniciais da montagem do NAC, que abre com uma contundente performance individual, insinuam uma aproximação com essa referência, mas as demais canções, cantadas em grupo, ficam um tanto diluídas.

            É indiscutível que Boal tem um lugar de destaque na nossa história e é importante que estudantes de teatro conheçam a sua dramaturgia e as suas ideias. No entanto, quando o intuito do teatro é tratar da atualidade, a escolha por encenar um texto criado em outro momento histórico demanda um intenso trabalho de apropriação e atualização, uma outra camada de autoria por parte da encenação e das atuações. O que era relevante nos anos 60, especialmente em termos de linguagem, pode não ter a mesma eficácia nesse início do século XXI. Em vez de se colocar como atitude crítica afiada e firme no seu posicionamento, a montagem em questão pode se tornar apenas mais um discurso de reclamação generalizada sobre política, que no final das contas apenas contribui para o velho (e autodestrutivo) hábito de rejeição à política que tem custado tão caro aos cidadãos brasileiros.

            As criações cênicas da atualidade têm apresentado diversas formas de se posicionar e de propor aos espectadores questionamentos pertinentes à vida em sociedade. Também poderia ser interessante, para um curso que se propõe a formar artistas, arriscar-se com a experimentação com as poéticas contemporâneas e com a pluralidade de formas de posicionamento político no teatro, que, muitas vezes, pode ser mais eficaz quando é menos literal.


As gravações das canções do “Opinião”, cantadas por João do Vale, Nara Leão (depois substituída por Maria Bethânia) e Zé Keti, jóias raras da história do teatro brasileiro, estão disponíveis no canal do Instituto Augusto Boal no SoundCloud: https://soundcloud.com/instboal

Por Daniele Avila Small

Daniele Avila Small – Daniele Avila Small é crítica e curadora de teatro. Doutora em Artes Cênicas pela UNIRIO, é idealizadora e editora da revistaQuestão de Crítica

Foto:Paulo Amaral