A desigualdade, e não o vírus, escolhe cor, raça e classe: entenda

Desigualdades sociais e raciais já existentes antes da pandemia agravam as condições de enfrentamento dos mais vulneráveis e os torna mais suscetíveis a contrair a doença

Com mais de 5 milhões de pessoas infectadas e 328 milhões de mortes por COVID-19 em todo o planeta, o novo coronavírus se tornou, em poucos meses, a questão de saúde pública mais impactante do último século.

É fundamental adotar medidas de precaução, como a ampliação de hábitos básicos de higiene, e até providências mais restritivas, como a quarentena e o lockdown. Ademais, a condição financeira e socioeconômica que já existia em cada país antes da chegada da pandemia é um fator essencial para compreender o modo como o vírus se espalha e mata.

Além de comorbidades pré-existentes, a desigualdade monetária de diferentes populações dentro de cada país é uma circunstância que agrava os riscos de contrair a COVID-19. Assim, pessoas socialmente vulneráveis, com destaque para a população negra, são o principal alvo do novo coronavírus, no Brasil e em outros países do mundo.

O Brasil ainda não registra a raça de todos os pacientes contaminados e/ou mortos por COVID-19. Por outro lado, nos Estados Unidos, esse dado é registrado e mostra que as taxas de infecção e de mortalidade são mais altas entre a população negra do país.

Não há estudos que comprovem uma predisposição genética da população negra para contrair essa doença. Especialistas apontam que esse quadro se deve às condições desiguais estruturais, já presentes antes da pandemia. Elas dificultam o acesso de negros a boas moradias e serviços de saúde.

Negros são a maioria em serviços essenciais

A precarização das condições de trabalho da população negra, no Brasil e nos Estados Unidos, faz com que eles sejam a maioria nos serviços considerados essenciais, tais como motoristas de ônibus, entregadores delivery, funcionários de supermercados, de serviço de limpeza e enfermeiros.

Esses trabalhos e condições, muitas vezes, precarizadas, ampliam a chance de negros serem afetados pela COVID-19. Na cidade de Chicago, 30% dos moradores são negros, mas eles correspondem a 70% das mortes pelo novo coronavírus. A região é marcada por desigualdades históricas que fazem os negros terem uma expectativa de vida 8,8 anos menor que a de brancos.

No Brasil, as empregadas domésticas e diaristas, negras, em sua maioria, são mais afetadas, já que, além de se expor ao saírem para trabalhar e usarem transporte público, limpam ambientes como o banheiro, o que aumenta as chances de contaminação.

Uma das primeiras mortes registradas por COVID-19, no país, foi a de uma empregada doméstica negra, infectada pela patroa que havia acabado de retornar da Itália, um dos epicentros da doença no mundo. Entre 11 e 26 de abril, o número de negros mortos por COVID-19 foi cinco vezes superior ao de brancos. Na cidade de São Paulo, doença atinge mais áreas onde negros são maioria.

Trabalho essencial e também de risco

No fim de maio, além de ter se tornado o terceiro país do mundo com o maior número de casos, o Brasil assumiu a triste liderança no total de enfermeiros, técnicos e auxiliares de enfermagem mortos pela pandemia — ao menos 100, segundo dados do Conselho Federal de Enfermagem (Cofen).

Até o dia 19 de maio, o Brasil tinha registrado 15.620 casos de COVID-19 confirmados entre os profissionais da área, totalizando 107 mortes comprovadas pela doença. O Conselho Internacional de Enfermeiros (ICN) registrou, ao menos, 360 óbitos desses profissionais em todo o mundo. Isso faria do Brasil o responsável por um terço do número de falecimentos em todo o mundo.

Apesar de estarem em contato com pacientes contaminados, não é esperado que tais profissionais morram em grandes quantidades, já que existem protocolos de segurança e equipamentos de proteção essenciais para o trabalho deles.

Contudo, em diferentes países, incluindo o Brasil, foram registradas denúncias de profissionais de saúde atuando em condições precárias, com protetores faciais, máscaras e outros recursos básicos de proteção em número insuficiente. Na Espanha, houve enfermeiros trabalhando com a cabeça coberta por sacos de plástico improvisados, mediante a falta desse material.

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